Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial do R7 a Santos*
Dois clássicos do teatro mundial ganharam destaque na programação o Mirada, o Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos, promovido pelo Sesc São Paulo até o próximo dia 15 na cidade litorânea paulista.
São os espetáculos Romeu e Julieta, de William Shakespeare, com o Grupo Galpão, de Minas Gerais, e Mãe Coragem e Seus Filhos, de Bertold Brecht, pela Companhia Nacional de Teatro (CNT) da Costa Rica.
Mãe Coragem e Seus Filhos
O poderoso e conhecido texto de Brecht Mãe Coragem e Seus Filhos teve lugar nesta sexta (7) e sábado (8) no Teatro Municipal Brás Cubas, com direção de Eugênia Chaverri.
A peça foi montada pra celebrar os 40 anos da CNT, com o conhecido enredo da mãe corajosa e batalhadora que vai perdendo seus filhos para a guerra, que antes era benéfica a seus negócios e acaba sendo sua algoz.
Apesar de a obra se passar no século 17, tendo como pano de fundo textual a guerra entre protestantes e católicos, o belo figurino usado pelo elenco leva o espectador a fazer um paralelo com a Segunda Guerra Mundial.
Afinal, os atores se vestem com indumentárias que estamos acostumados a ver nos filmes que retratam o período de combate e derrota do nazismo.
O cenário é uma espécie de picadeiro montado no grande palco italiano, com atores se equilibrando muitas vezes em suas bordas. Mérito da montagem, a música é executada ao vivo por (um bom) pianista e (um mediano) percussionista.
A longa direção da obra sublinha as falhas do elenco. A obra se arrasta em interpretações algumas vezes confusas e outras caricatas ao extremo, com os atores olhando para a plateia, em busca de alguma cumplicidade com o que dizem nas cenas em que contracenam entre si, o que enfraquece o impacto dos diálogos e quebra a relação de ilusão já estabelecida com o público.
Mãe Coragem é interpretada por Ana Clara Carranza. A atriz parece segura no que acredita ser uma excelente atuação, mas o público santista pareceu não ter a mesma fé inabalável dela.
Há números musicais que, mesmo com a afinação mediana do elenco, ajudam a aliviar o espectador muitas vezes perdido. Por fim, Mãe Coragem e Seus Filhos acaba sendo um espetáculo que soa pomposo, mas sem sustentação de fato.
Romeu e Julieta
Já o Grupo Galpão embarcou no sucesso de 20 anos atrás em apresentação única no Mirada, no Emissário Submarino, em plena praia, na quente tarde deste sábado (8).
Os mineiros retomaram Romeu e Julieta, a lendária obra criada por eles de 1992, com mesmo elenco e direção de Gabriel Villela, após convite para apresentarem-se em uma maratona teatral em Londres, em maio deste ano, por conta das Olimpíadas.
Apesar do esforço perceptível da direção e do elenco em manter o frescor original da primeira montagem, o que foi seu grande charme e chamariz, tal efeito parece não mais possível. Pelo menos na sessão vista pelo R7 no Mirada.
Tudo bem que o sol a pino não ajudou nem um pouco, mas fato é que os atores pareciam cansados e superficiais nos papéis, sobretudo Fernanda Vianna, que fez uma Julieta arrastada e assustadoramente fraca.
Apesar de um pouco melhor com seu Romeu, Eduardo Moreira, assim como sua colega, também não demonstrava entrega desmedida ao papel, como pedem os personagens apaixonados.
É sabido que a obra leva a história para dentro da cultura popular do sertão brasileiro, com inspiração na obra do escritor mineiro Guimarães Rosa, seu grande mérito. Além da universalidade do texto, o público compra a montagem do Galpão também por meio de recursos como o uso do cancioneiro popular, bem executado ao vivo pelos atores. Mas faltou alma e vigor à remontagem apresentada no Mirada.
O casal de protagonista ficou bem aquém do frescor do amor juvenil que seus personagens pedem.
Mas, justiça seja feita: se os protagonistas não estavam bem, o elenco coadjuvante segurou as pontas. Rodolfo Vaz, como Mercurio, Teuda Bara, intérprete da ama, e Inês Peixoto, a mãe de Julieta, nadaram de braçadas no espetáculo apresentado diante do mar e salvaram a renomada companhia de Belo Horizonte.
Mãe Coragem e Seus Filhos
Avaliação: Regular
Romeu e Julieta
Avaliação: Bom
*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Sesc São Paulo.