Crítica: Magiluth debocha de tudo e é sensação no Festival de Curitiba com Viúva, porém Honesta

Magiluth assume seu caos sem nenhuma culpa e com muita ironia e vira destaque no Festival de Curitiba em 2013 – Foto: Victor Jucá/Divulgação
Por Miguel Arcanjo Prado*
Enviado especial do R7 ao Festival de Curitiba
O Grupo Magiluth, de Recife (PE), estreou nesta quarta (3) sua montagem de Viúva, porém Honesta no Festival de Curitiba.
A trupe composta por seis atores pernambucanos – Pedro Vilela, Giordano Castro, Erivaldo Oliveira, Mario Sergio Cabral, Lucas Torres e Pedro Wagner – apresenta uma versão irreverente e cheia de personalidade para o texto escrito por Nelson Rodrigues, conterrâneo centenário do grupo. É de se espantar que a obra não tenha feito parte da mostra oficial do evento.
Apesar do ingrato horário das 13h, a estreia aconteceu com casa cheia e vigorosos aplausos no TEUNI. A apresentação se repete sempre às 13h até sábado (6).
Em Viúva, porém Honesta, o Magiluth reforça o deboche presente na “farsa irresponsável”, como denominou o próprio Nelson Rodrigues quando a escreveu na década de 50. Integrantes da geração que adora ironizar a tudo e a todos em frases sob encomenda para as redes sociais, os Novos Pernambucanos do Teatro Brasileiro não salvam ninguém, nem a eles mesmos.
Descascam a hipocrisia sexual brasileira, a imprensa fazedora de manchetes, os críticos teatrais – com sua pompa de arrogância e excesso de sensibilidade – e o próprio teatro, ao desconstruir todas as estruturas cênicas sob os olhos do público.
Nem a expressão “batata”, lugar-comum na obra de Nelson Rodrigues, se salva e é personificada no palco para desespero do elenco e diversão do público diante da obviedade transgressora da proposta.
Até a faxineira do teatro, que teimou em ver a estreia pela fresta da cortina lateral, tornando evidente sua presença, contribuiu sem querer para que a balbúrdia fosse instaurada.
Sabedores de que a originalidade é o maior trunfo que um artista pode ter, os rapazes arretados do Magiluth recriam a obra de Nelson Rodrigues com seus olhares e corpos ímpares cheios de vigor.
Caos e pênis de borracha
Com a libido em riste, brincam com os personagens da peça sobre a jovem viúva filha de um dono de jornal, que passam pelas mãos de todos. A mistura é tanta que até eles se confundem. Ou não. E o público ri e os acompanha na festa quase sem fim.
A iluminação contribui para o caos, bem como os figurinos e os objetos cenográfico cheios de significados que ajudam na composição dos personagens – sejam tranças loiras, boinas, blocos ou até mesmo um pênis de borracha.
A desconstrução começa de cara. Enquanto a plateia se acomoda e recebe rosas vermelhas para serem atiradas nos aplausos final, os meninos do Magiluth se despem aos poucos do figurino elegante com o qual estão vestidos.
O espírito de grupo é presente em todos os momentos. Até nas atuações. Os garotos se defendem, se ajudam, se empurram e formam um todo bonito e coeso. Tudo converge para um destaque conjunto.
O caos está presente o tempo todo, seja nos pulos, nos berros, nos corpos, na mistura eclética ou mesmo nas coreografias cafonas para as músicas bizarras que passam por sucessos, como É Bom para o Moral, de Rita Cadillac, ou do Loco Mía, aquele grupo composto por garotos espanhóis que cantavam no Xou da Xuxa nos anos 1980.
Em Viúva, porém Honesta, o Grupo Magiluth é coerente com a trajetória arriscada e hipnotizante que desenham para si mesmos. Se arriscam. Pulam de cabeça sem medo. Há tanta verdade na loucura deles que ninguém consegue passar incólume à presença dos rapazes. É como se, num passe de mágica, todos ficássemos magiluthzados.
Viúva, porém Honesta – Grupo Magiluth
Avaliação: Muito bom
*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Curitiba.
Veja a cobertura completa do R7 do Festival de Curitiba
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Este será um “post” difícil para mim… Como dizer? Admiro a criatividade e tenho certeza que o pessoal do Magiluth deve divertir bastante a quem assiste ao espetáculo, entretanto, não creio que acharia graça em certas partes. O conceito do que é engraçado é relativo, variando de pessoa para pessoa. Entretanto, aplaudo a atitude do Magiluth porque eles usam um espaço PRIVADO (assim, com caixas altas) para apresentar sua arte. Sim, porque quando há algo que pode soar ofensivo aos outros, o espetáculo deve ser exibido em espaços privados, com clara restrição/classificação de faixa etária. Aí vê quem quer e não há problema algum. É opção da pessoa. Simples assim!