Crítica: Como Matar a Mãe – 3 Atos é dor de abandonar colo para poder sobreviver

Cena da peça Como Matar a Mãe – 3 Atos: montagem de estreia da Sofisticada Companhia de Teatro encerrou a Satyrianas no palco da SP Escola de Teatro – Foto: Guto Muniz
Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Mãe muitas vezes é ferida complicada, muito profunda. Amor de mãe dói tanto quanto amor de filho. É difícil cortar o cordão umbilical. Muitas coisas ficam pelo caminho, muitas expectativas, exigências, frases ditas, não ditas, possíveis e impossíveis realidades.
Foi tudo isso que a mineira Sofisticada Companhia de Teatro resolveu propor no espetáculo que encerrou a Satyrianas 2014: Como Matar a Mãe – 3 Atos. A montagem não poderia ser mais apropriada para ser a última peça do evento teatral que tem seu epicentro na praça Roosevelt, lugar de muita gente que precisou deixar a mãe para trás para simplesmente seguir em frente e ser.
Como Matar a Mãe – 3 Atos é uma grande catarse. Daquelas necessárias para deixar (em parte) a dor para trás. Bebendo na fonte das grandes figuras maternas do teatro, a obra traz o dilema da relação mãe-filho para o presente e a vida dos artistas no palco, transformando tudo em arte potente, dilacerante.
Os três atores-diretores, Fabiane Aguiar, Léo Kildare Louback e Soraya Martins descortinam parte das próprias relações com suas mães, mas o fazem de forma poética e sensível. E, por isso, tão tocante.
A peça traz a sofisticação de ter trilha executada ao vivo, pelo pianista Thiago Quintino e a cantora apaixonada por cada verso Karine Amorim, o que torna tudo mais pungente. A referência explícita a Almodóvar com a canção Puro Teatro é um dos momentos fortes do espetáculo.
Sempre em jogo e vestindo figurino simples e impactantes ao mesmo tempo, os artistas contam suas histórias-desabafos. Ora são os filhos, ora as próprias mães. Algumas são mais fáceis de serem digeridas, outras ficam atravessadas na garganta.
Uma cena potente é o embate entre os atores Léo Kildare Louback e Soraya Martins, presentes e intensos. Léo na pele de uma mãe arraigada em sua visão de mundo que fere profundamente a filha, papel de Soraya.
Neste duelo cênico, o racismo ganha contornos familiares-afetivos e é justificado pelo amor. E a grande pergunta inquietante que se deixa, ao fim, é: afinal, amor de mãe justifica tudo?
Pelo jeito, a negação do outro não reduz o sofrimento que este possa ter; muito pelo contrário, o aumenta, provocando dores intransponíveis, profundas.
Mas, para quem deseja sobreviver e se reconstruir com base na própria cabeça, só resta seguir em frente e tentar poetizar as relações reais, transformando-as em arte, coisas que os artistas da Sofisticada Companhia de Teatro fazem muito bem. E isso acaba sendo uma forma de matar a mãe, mas também de deixá-la viva ao mesmo tempo.

Fabiane Aguiar, Léo Kildare Louback e Soraya Martins formam a Sofisticada Companhia de Teatro – Foto: Guto Muniz
Com Matar a Mãe – 3 Atos
Avaliação: Muito Bom
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Não creio que todas as relações entre mãe e filho tenham de ser dramáticas. São, sim, relações intensas, provavelmente as de maior carga emocional existente, mas é possível que essas relações, com o tempo e a maturidade, sejam revitalizadas e melhor compreendidas, ganhando leveza. Certamente uma peça com um grande viés “freudiano”.