Crítica: Plateia neurótica não sossega durante teatro kabuki

Cena do espetáculo Coreografias do Kabuki, de Fujima Kanjuro - Foto: Divulgação

Cena do espetáculo Coreografias do Kabuki, de Fujima Kanjuro – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Vindo diretamente do Japão para celebrar os 120 anos das relações diplomáticas entre o país oriental e o Brasil, o espetáculo Coreografias do Kabuki, de Fujima Kanjuro, grande nome desta arte japonesa, aportou no palco do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

O frenesi era presente em boa parte da plateia antes de o espetáculo começar. O falatório era farto e em voz alta. Muitos gargalhavam ou faziam grandes gestos, na expectativa de serem vistos por todos ali.

O clima era de tamanha descontração que mais parecia uma plateia de humor stand-up do que, propriamente, espectadores de um teatro representante de uma cultura milenar.

Barulho

Mesmo com insistente aviso para desligamento dos celulares nos autofalantes do teatro, assim que a luz se apagou, um celular de um espectador egoísta ainda teimou em fazer barulho, prejudicando o silêncio absoluto que o começo do kabuki exige.

Este foi outro problema para deguste do espetáculo de Fujima Kanjuro, tamanha a quantidade de tosses e movimentação nas cadeiras dos espectadores inquietos. A pergunta é: se a tosse era tão brava, por que não ficar em casa, debaixo das cobertas, e deixar em paz os demais espectadores? Agora, para quem não consegue fazer silêncio, um esparadrapo poderia ter resolvido o problema.

Paz interior

Fato é que tanto Fujima Kanjuro, quanto seus atores e os músicos da Orquestra de Kabuki foram heróis da resistência e mantiveram a paz interior que sua arte exige, executando-a com destreza.

Tanto o Sanba-Sô, um ritual de purificação do palco, quanto a segunda parte, na qual interpretaram A Lenda da Aranha da Terra ou O Sacerdote Ishi-Gumo e a Princesa Fada Shira-Giku.

No intervalo entre os dois números, foi dada uma pausa de 15 minutos. Logo, mesmo após todo o processo ritualístico do Sanba-Sô, grande parte da plateia continuava com altos níveis de adrenalina que os fazia conversar em altos níveis de decibéis, em uma neurose coletiva.

O mesmo se deu ao fim do espetáculo, já que muitos espectadores mais pareciam saídos de um show de axé do que de uma sessão de uma arte tão potente e ancestral. Fazer o quê?

Coreografias do Kabuki * * * *
Avaliação: Muito bom
Quando: 13, 14 e 15/8/2015, às 21h. 80 min.
Onde: Teatro Paulo Autran (r. Paes Leme, 195, metrô Faria Lima, São Paulo, tel. 0/xx/11 3095-9400)
Quanto: R$ 40
Classificação etária: 10 anos

2 Resultados

  1. Paulinho Faria disse:

    Diria inacreditável, mas dado o período ao qual temos vivido é absolutamente acreditável. Triste.

  2. Phillipe disse:

    A questão é, sem dúvida, de educação, de respeito e de civilidade. Mas, lamentavelmente, vivemos realmente tempos obscuros, nos quais há uma patrulha ideológica para que aceitemos o governo atual passivamente, achando que tudo é lindo. Quem protesta é considerado retrógrado, quando não é achincalhado. Se a população foi às ruas pedir o “Impeachment” do Collor, por que não pode fazer o mesmo em relação à Dilma? Democracia, se real, é permitir que todos possam se manifestar e respeitar todos os pontos de vista.

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