Entrevista de Quinta: “Faço teatro porque sou louco e fascinado pelos encontros”, diz Léo Kildare Louback, que vai a Chile, Cuba e México
Por MIGUEL ARCANJO PRADO
O ator, diretor, dramaturgo e tradutor mineiro Léo Kildare Louback internacionaliza cada vez mais seu trabalho no teatro.
Nesta quinta (21), viaja para Santiago do Chile, onde apresenta sua peça Temblor – Un Solo para Dos Actrices, com ele e Carolina Correa, com quem tem o Grupo dos Dois, no V Festival Internacional Santiago Off.
Em fevereiro, o artista graduado pela UFMG e com mestrado pela UFSC vai para Cuba, também com Carolina, que interpreta o monólogo Carolina, de Lorca, escrito e dirigido por Louback. Em junho, as duas peça participam de um festival teatral na Cidade do México.
Com o passaporte carimbado, o artista, que já viveu na Alemanha e ainda passou temporadas no Peru e em Buenos Aires, conversa com o site nesta Entrevista de Quinta. Louback fala sobre este momento no qual seu trabalho conversa com distintas plateias e diz gostar disso, propondo o encontro como razão pela qual faz teatro.
Leia com toda a calma do mundo.

Carolina Correa e Léo Kildare Louback em cena de Temblor – Un Solo para Dos Actrices: apresentações em Santiago do Chile – Foto: Alex Silva/Divulgação
MIGUEL ARCANJO PRADO — Você levará a peça Temblor a Santiago. Como encara esta apresentação internacional e o que o público chileno pode esperar?
LÉO KILDARE LOUBACK — O projeto Temblor – Un Solo para Dos Actrices surgiu quando fomos apresentar a peça Carolina, de Lorca no festival Santiago Off no ano passado, em janeiro. É meu primeiro trabalho internacional, em que conto com a parceria do diretor e dramaturgo Víctor Sánchez Rodríguez, de Valência, na Espanha, na construção do texto e no pensamento de encenação. Trata-se dos terremotos físicos e emocionais que duas atrizes enfrentam ao se apresentarem em uma aguardada versão de As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Fassbinder, em um festival em Santiago.
MIGUEL ARCANJO PRADO — Na obra você está com a atriz Carolina Correa. Ela já é uma parceira antiga… O que aproxima vocês?
LÉO KILDARE LOUBACK — Somos juntos fundadores do Grupo Dos Dois, responsável por essa nova produção. Nosso primeiro trabalho foi Carolina, de Lorca, monólogo com a Carol em cena, escrito e dirigido por mim. Somos parceiros há algum tempo e imagino que seremos por longa data. Há muitos novos projetos que já pensamos juntos para os próximos anos.

Viagem a Cuba: Carolina Correa em Carolina, De Lorca: texto e direção de Léo Kildare Louback – Foto: Guto Muniz/Divulgação
MIGUEL ARCANJO PRADO — Este ano você também vai a Cuba? Com qual obra?
LÉO KILDARE LOUBACK — Recentemente fomos convidados a integrar a programação do III Festival del Monólogo Latinoamericano de Cuba, com a mesma Carolina, de Lorca, que já passou pela Argentina e por Santiago do Chile. Além de Cuba, devemos ir ao México em junho.
MIGUEL ARCANJO PRADO — Recentemente você viveu Salvador Dalí em uma peça em Belo Horizonte. Como foi esta experiência?
LÉO KILDARE LOUBACK — A peça Ode a Um Amigo foi uma das melhores experiências que um ator pode viver. Trabalho de uma potência monstruosa e de bastante complexidade de composição. Pude contar com a direção cuidadosa da Letícia Castilho e do Fernando Borges Barcellos, além da parceria linda com o elenco e principalmente com o Íviler Rocha, intérprete de Lorca, que me convidou para a empreitada. Ainda no primeiro semestre voltaremos em cartaz em Belo Horizonte e faremos circuito de festivais.

Léo Kildare Louback vive Salvador Dalí e contracena com Íviler Rocha em Ode a um Amigo: peça deve voltar ao cartaz em BH em 2016 – Foto: Jean Félix/Divulgação
MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você avalia o 2015 para você? E em 2016, o que espera?
LÉO KILDARE LOUBACK — Olha, Miguel, 2015 foi maravilhoso, no fim do ano apresentamos a peça Leve Cicatriz, com a Luciana Brandão, no festival Satyrianas, em São Paulo. Também não posso deixar de falar que foi o ano da estreia do meu primeiro longa-metragem no qual atuei, Trago Seu Amor, do Dellani Lima, que estreou no 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo e depois passou também em Belo Horizonte, no Indie Festival. E 2016 já começa com essa apresentação em Santiago da nova peça, a viagem pra Cuba, novos projetos ainda em pré-produção e o festival de cenas curtas A-Mostra-Lab, em Belo Horizonte, do qual sou um dos produtores e que este ano comemora cinco anos de muita alegria e satisfação. E isso é apenas o começo.

Léo Kildare Louback com o cineasta Dellani Lima, que o dirigiu no filme Trago Seu Amor, apresentado no 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo – Foto: Marcos Finotti/Divulgação
MIGUEL ARCANJO PRADO — O teatro mineiro está se internacionalizando cada vez mais. Você acredita no verso “sou do mundo, sou Minas Gerais”?
LÉO KILDARE LOUBACK — Acho que temos que ir além de nossas serras para levar nosso pensamento artístico a outras realidades e culturas. Trocar para renovar, se reinventar. O mundo é pequeno pra nós.
MIGUEL ARCANJO PRADO — Além de Cuba e Chile, você também mantém uma relação próxima com artistas de outros países? Quais?
LÉO KILDARE LOUBACK — Iniciei com o Peru e o grupo Yuyachkani, depois surgiu a Argentina e os meninos que produzem o Festival de Teatro Independiente em Buenos Aires. Logo veio Chile, através do grupo La Familia Teatro, do meu querido Eduardo Luna, e agora se extendeu para Espanha, com o Víctor. Também tenho conversado muito com o ator e diretor argentino Juan Manuel Tellategui, que vive em São Paulo, queremos fazer algo juntos. Vejamos o que surge também da ida a Cuba e ao México…

Detalhe da tatuagem que Léo Kildare Louback fez em homenagem ao grupo peruano Yuyachkani, com o qual trabalhou – Foto: Jorge Baldeón Rodríguez/Divulgação
MIGUEL ARCANJO PRADO — É verdade que você tatuou o nome do grupo peruano Yuyachkani? Por quê?
LÉO KILDARE LOUBACK — Sim, do mesmo Yuyachkani, que em quéchua significa “estou recordando”. Teatro como exercício da memória, do relembrar, do revisitar o passado com vistas a outro tipo de futuro. Assim é o teatro que eles fazem e defendem e eu compartilho não só na pele.
MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que o teatro brasileiro precisa conversar mais com os artistas vizinhos da América Latina? Por quê?
LÉO KILDARE LOUBACK — Sim, absolutamente. Nessas andanças recentes encontrei pouquíssimos brasileiros. Há a barreira da língua e das dificuldades com relação aos custos de viagem e produção.
MIGUEL ARCANJO PRADO — Além da América Latina, você tem uma experiência com a Alemanha, onde viveu. O que você acha do teatro alemão?
LÉO KILDARE LOUBACK — Muito técnico. É outra forma de teatro que aliada ao “sangue no olho” do latino pode gerar um teatro de hibridez interessante.
MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual é a característica principal do teatro que você faz?
LÉO KILDARE LOUBACK — É uma busca pelos limites da ficção e da biografia, que chamo de Processos de Ficções Autobiográficas.
MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
LÉO KILDARE LOUBACK — Porque sou louco. E fascinado pelos encontros.