Crítica: Sofia Viola é nome potente da nova música argentina

Sofia Viola: nome potente da nova música argentina - Foto: Divulgação

Sofia Viola: nome potente da nova música argentina – Foto: Divulgação

Por Miguel Arcanjo Prado

Nem o vento cortante sob 11 graus no topo do Edifício Martinelli, no centro histórico de São Paulo, foi capaz de esfriar o aconchego que a música da cantora argentina Sofia Viola criou nas alturas.

A artista se apresentou pela primeira vez no Brasil na noite desta terça (20), pelo projeto “Música nas Alturas”, do Mês da Cultura Independente 2016, realizado pela Prefeitura de São Paulo.

As poucas entradas, distribuídas gratuitamente, logo se esgotaram. Um pequeno grupo de fãs que chegou em cima da hora, maquiado tal qual Sofia em suas fotos de divulgação, tentou disputar alguma vaga sobressalente, mas sem sucesso.

A organização avisou que a regra permitia subir apenas 80 pessoas, mesmo que o espaço dava a impressão de comportar número maior. Foi de cortar o coração ver a cara dos fãs, no calçadão da avenida São João, desolados por não conseguirem entrar.

Cabe aqui uma pergunta: por que o show público de uma artista internacional que toca pela primeira vez no Brasil não foi feito em local que comportasse público maior, como o Parque Ibirapuera, por exemplo?

Mas, voltemos ao show. Quem teve a sorte de subir pôde desfrutar de Sofia em grande momento, fazendo com que sua música preenchesse tudo ao seu redor, rodeada de vista panorâmica da metrópole e de um céu paulistano atípico, com estrelas e nuvens.

Sofia Viola canta no topo do Edifício Martinelli, em São Paulo - Foto: Mundo Giras

Sofia Viola canta no topo do Edifício Martinelli, em São Paulo – Foto: Mundo Giras

Simpática, a cantora improvisou português para explicar suas canções ao público e fez um repertório (anotado em um papelzinho que tirava do bolso da blusa de frio) que variou por estilos desde os mais autóctones da América do Sul até canções jazzeadas que logo ganharam cumplicidade da plateia em estalar de dedos ou palmas, sugeridos pela artista.

Vinda da terra que deu ao mundo a grandeza de Mercedes Sosa, cujo diálogo com o Brasil foi possível graças a um interesse de intercâmbio em músicos como Milton Nascimento, Sofia prova que a música segue vibrante no continente. E é preciso ser redescoberta por nós. É a sensação que fica ao escutá-la.

Sofia canta deslumbrantemente bem, fazendo incríveis variações com sua voz, que traz a profundeza de sua ancestralidade e de todo um passado histórico latino-americano.

E ela ainda é capaz de criar com um instrumento e sua voz toda uma grande banda no cérebro de quem a escuta. Envolvente, leva o público a acompanhá-la.

E se lhe sobra poesia, não lhe falta olhar perspicaz para o mundo ao seu redor. Como na preciosidade “Pancho en Constitución”, que fala dos trabalhadores da periferia de Buenos Aires e da praça onde fica a estação que dá nome à canção, com seus “40 mil pasajeros disconformes que trabajan”.

Mesmo na dureza da vida, Sofia poetiza a resistência daqueles trabalhadores, seja comendo um “pancho” (cachorro-quente) acompanhado de “cervezita helada” ou “fumando marihuana”.

Quem tem interesse em conhecer boa música latino-americana precisa ouvir Sofia Viola, nome repleto de potência na nova musicalidade argentina.

Sofia Viola * * * * *
Avaliação: Ótimo

Sofia Viola em seu primeiro show no Brasil - Foto: Mundo Giras

Sofia Viola em seu primeiro show no Brasil – Foto: Mundo Giras

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