Crítica: Enquanto as Crianças Dormem tem Dorothy abusada pelo engodo consumista

Juan Manuel Tellategui, Carol Hubner e Diogo Pasquim (ao fundo) em cena da peça “Enquanto as Crianças Dormem”: tragédia anunciada que vê dignidade morrer enquanto sonha em brilhar nos letreiros da Broadway – Foto: Bob Sousa

Por Viviane A. Pistache*, crítica convidada
Especial para o Blog do Arcanjo do UOL
Fotos Bob Sousa

É triste constatar que ainda neste país ensinam-se as meninas a deitarem eternamente em berço esplêndido e sonhar com o im-possível. A peça Enquanto as Crianças Dormem nem precisou do clichê dos bailes de debutantes para pôr no palco a vida ordinária de tantas garotas brasileiras.

A peça é a crônica de uma tragédia anunciada: a morte da dignidade de uma jovem trabalhadora numa rede de fast-foods que sonha em brilhar nos letreiros da Broadway.

Cercada de homens por todos os lados, Kelly (Carol Hubner) vive o dilema de ser a face mais vulnerável da lanchonete mais imunda da cidade. Encarnando a crueldade da reforma trabalhista recentemente aprovada, o gerente Stanley (com incrível atuação de Juan Tellategui), goza triturando todo e qualquer direito de seus subordinados.

Assim, dentro de seu reinado manco promove um vale-tudo de desmandos com a tranquilidade de quem é blindado pela impunidade.

Juan Manuel Tellategui contracena com Carol Hubner em “Enquanto as Crianças Dormem”: gerente de fast food encarna crueldade trabalhista – Foto: Bob Sousa

O fio condutor é portanto a saga da protagonista Kelly rumo ao estrelato, não importa quanta violência ou quantos pesadelos à espreita pelo caminho. Ela é uma consumidora infantilizada, que acredita na estrada curta para a Cidade das Esmeraldas.

Assim, se deixa levar por seu All Star vermelho, a versão moderna dos sapatinhos de rubi da Dorothy. E o engodo da magia de Oz que a impele na travessia é a aliciadora e traficante de drogas Ellen (atuação brilhante de Carolina Stofella), mulher tão física e psicologicamente abusada quanto a protagonista.

Mas o absurdo tem preço, e nos flagramos dispostos a pagar qualquer mixaria ou qualquer fortuna por ele. Não por acaso, as prateleiras estão empanturradas de mercadoria para todo tipo de consumidor, como bem mostra o ator Diogo Pasquim, incorporando o apelo consumista: a família Margarina, a bancada BBB, os topizera 45 ou os bacaninhas do espectro arco-íris. E assim concordamos com uma existência de likes patrocinados que nos alimentam de inconsistências e paradoxos.

Diogo Pasquim, Carol Hubner e Carolina Stofella: prateleiras estão empaturradas de mercadoria para todo tipo de consumidor em “Enquanto as Crianças Dormem” – Foto: Bob Sousa

E para tecer esta narrativa, o diretor e autor Dan Rosseto não economiza nas referências. A peça é um anti-musical que faz um ode aos musicais; é uma declaração de amor rasgada de quem não temeu revelar que teve as mais íntimas fantasias embaladas por este gênero da dramaturgia.

Mas a roupagem moderna não fica apenas por conta de obras do cinema como “Chicago”, de Rob Marshall, pois o autor bebe em diversas outras fontes. Há pelo menos uma pitada de “Mulholland Drive”, de David Lynch, um toque de “O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Esposa e o Amante”, de Peter Greenaway, ou do “1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras”, de Marcelo Masagão.

Mas, acredito que o paladar dos espectadores brasileiros está muito mais acostumado com os ingredientes da novela “América”, de Glória Pires, e da série “Pablo Escobar”, estrelada por Wagner Moura.

Carol Hubner e Carolina Stofella em cena de “Enquanto as Crianças Dormem”: espetáculo é repleto de referências e é declaração de amor aos musicais – Foto: Bob Sousa

Apesar do caráter popular destas obras, daí são extraídos importantes elementos cômicos, que a um só tempo beiram ao dramalhão mexicano, mas que também nos desafia a resgatar o que conhecemos sobre as fronteiras do tráfico internacional de drogas, os muros da xenofobia imperialista e o nosso complexo de vira-latas.

“Enquanto as Crianças Dormem” é uma crítica social mordaz que nos lança no olho do furacão para nos despertar do costumeiro cochilo ante às mazelas sociais.

Carol Hubner, João Sá, Juan Manuel Tellategui e Roque Greco: “Enquanto as Crianças Dormem” aborda tráfico internacional de drogas e muros da xenofobia imperialista – Foto: Bob Sousa

Mas, atrevo aqui a cutucar a onça com a vara longa: a peça é encenada no Teatro Aliança Francesa, para espectadores que podem pagar 50 reais no ingresso. Eu era a cota racial da plateia, assistindo ao drama de milhares de atendentes negras nos fast-foods da vida ser encenado por um atriz branca, assim como todo o elenco.

Isso certamente me fez lembrar o filme “Tempo de Matar”, estrelado por Samuel Jackson, um advogado encarregado de julgar um caso de vingança perpetrada por um pai negro, que teve sua filha, igualmente negra, brutalmente violentada.

Diante da indiferença do júri branco, o advogado apela para que as pessoas no tribunal imaginassem que as atrocidades em questão tivesse se passado com uma garota branca. E, só desse modo, ele consegue despertar a compaixão no julgamento.

Haroldo Miklos e Carol Hubner em “Enquanto as Crianças Dormem”: desafio a se repensar relações patronais ou de consumo de serviços estabelecidas – Foto: Bob Sousa

Não quero ofender a plateia monocromaticamente branca que vê a peça “Enquanto as Crianças Dormem”, mas desafio as pessoas a saírem dali repensando as relações patronais ou de consumo de serviços estabelecidas com sujeitos, em sua maioria negros, que passam cotidianamente por suas vidas.

Curiosamente o teatro, que está localizado na rua General Jardim, tem acesso preferencial pela rua Bento Freitas; já que nem sempre o público está disposto a encarar o drama das travestis e prostitutas que acontece logo na rua de baixo, a Rego Freitas.

Certamente o texto da peça é potente, e Oxalá provoque a plateia a enfrentar as injustiças sociais para além da gentileza diária de cumprimentar o porteiro do condomínio; num mundo em que as vítimas reiteradamente são as condenadas em nosso sistema de Justiça que se pretende cego.

A peça está fazendo suas últimas apresentações. Vale a pena ir, pois “Enquanto as Crianças Dormem” é uma rica experiência tanto em termos de dramaturgia, quanto de reflexões antropológicas.

“Enquanto as Crianças Dormem”
Avaliação: Muito Bom * * * *
Quando: Quarta e quinta, 20h30. 130 min. Até 27/7/2017 (últimas sessões)
Onde: Teatro Aliança Francesa (r. General Jardim, 182, metrô República, São Paulo, tel. 11 3572-2379)
Quanto: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

*Viviane A. Pistache é bacharel em Psicologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mestre em Educação e doutoranda em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo). Mineira de Nova Lima radicada em São Paulo, integra o Projeto Pretas Dramas — um encontro entre a psicóloga Viviane A. Pistache, a roteirista Carolina Gomes e a cineasta Renata Martins, três mulheres negras, para pensar, refletir e produzir crítica e dramaturgia. 

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Samuel Carrasco, João Sá, Haroldo Mikos, Diogo Pasquim, Carol Hubner e Roque Greco em “Enquanto as Crianças Dormem”: texto potente – Foto: Bob Sousa

“Enquanto as Crianças Dormem” faz últimas sessões no Teatro Aliança Francesa, em São Paulo – Foto: Edson Lopes Jr.