Crítica: Com força de Marçal e Mercadante, Gota D’Água Preta inova clássico
Musical de Chico Buarque e Paulo Pontes consagrado por Bibi Ferreira em 1975 ganha versão dirigida por Jé Oliveira com forte recado étnico. A obra faz três sessões disputadas neste fim de semana no Auditório Ibirapuera, dentro do Parque Ibirapuera, Portão 3, em SP: sexta e sábado, 20h, domingo, 19h. R$ 30 inteira e R$ 20 meia.
“Gota D’Água {Preta}”
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Muito bom ✪✪✪✪
“Gota D’Água {Preta}”. Como o próprio nome já explicita trata-se de uma inovadora versão do clássico musical de Chico Buarque e Paulo Pontes de 1975, com um recorte étnico evidenciado.
Comumente interpretada por atores brancos, a história de Joana, moradora da periferia carioca abandonada pelo marido, o músico Jasão, deslumbrado com as benesses do sucesso e do poder, agora ganha novos e necessários recados.
A potente proposição é do projeto idealizado e dirigido por Jé Oliveira, ator que integra o Coletivo Negro e abarca essa produção em voo solo. Este escalou elenco majoritariamente negro para a montagem, como que se resgatasse aqueles personagens para seu povo.
No espetáculo, Jé se destaca, sobretudo, como um grande produtor cultural, além de diretor capaz de condensar no mesmo palco diferentes artistas da atual cena teatral e musical paulistana, propondo um diálogo potente e concreto.

“Gota D’Água {Preta} – Foto: Evandro Macedo – Divulgação Itaú Cultural – Blog do @miguel.arcanjo – UOL
Dois nomes se destacam no elenco vultoso e coeso: Juçara Marçal e Rodrigo Mercadante.
Juçara é integrante do grupo musical Metá Metá e dá vida a uma sofrida Joana, mergulhada em dor profunda que, com sua atuação, representa o que passa grande parte das mulheres negras deste país, tantas vezes preteridas ou abandonadas. Juçara faz entrega visceral à personagem, conseguindo condensar em seu estado de presença cênica irretocável todas as simbologias daquela triste e tão significante mulher.
Já Rodrigo Mercadante, por sua vez, comprova neste espetáculo ser um grande e completo ator. Ao interpretar o antagonista da obra, o faz de maneira tão convincente e carismática que consegue eclipsar tudo ao seu redor, tamanho seu talento no campo da atuação. Repleto de segurança a cada fala, constrói seu Creonte com uma verdade desconcertante não só para o Jasão de Jé Oliveira como para todo o público, que mergulha de forma visceral em seu talento.
O elenco ainda traz Aysha Nascimento — com sua força exuberante —, Dani Nega, Ícaro Rodrigues, Marina Esteves, Mateus Sousa e Salloma Salomão — este, uma surpresa vinda do mundo acadêmico agora como ator teatral, compondo com segurança um personagem sereno e cativante.
Outro destaque da montagem é a potente banda formada por Dj Tano (pick-ups e bases), Fernando Alabê (percussão), Gabriel Longhitano (guitarra, violão, cavaco e voz), Jé Oliveira (cavaco), Salloma Salomão (flauta transversal) e Suka Figueiredo (sax). Os músicos fazem as canções de Chico Buarque conversaram com a contemporaneidade, em diálogo inclusive com os Racionais MC’s já louvados por Jé Oliveira em “Farinha com Açúcar”, peça de sucesso do Coletivo Negro.
Apesar de sua extensa duração para os velozes tempos contemporâneos — praticamente três horas e meia de peça —, “Gota D’Água {Preta}” é um mergulho visceral em dilemas que o Brasil ainda não conseguiu resolver mais de 40 anos depois e que ainda seguem sem panorama resolutivo no periclitante cenário político atual.
Por isso mesmo, o musical é ainda mais potente e significativo. Ao explicitar a cor do pobre no Brasil a montagem renova o clássico musical, dando ao mesmo leituras bem mais interessantes do que as já apresentadas até então, provocando maior identificação do público, sobretudo o negro, agora representado devidamente no palco com uma história que, obviamente, sempre foi sua.