Crítica: Precisamos Falar de Amor Sem Dizer Eu Te Amo é lição de respeito

Teatro Municipal recebe peça de comédia-romântica com Priscila Fantin

O jogo da conquista nem sempre é tarefa fácil. Na maioria das vezes, beira o impossível, o que, para muitos, torna tudo ainda mais interessante. Priscila Fantin e Bruno Lopes mostram isso muito bem na comédia românica Precisamos Falar de Amor sem Dizer Eu Te Amo.

Entretanto, a dupla vai além do fugaz jogo sedutor, mostrando os seres humanos por detrás das primeiras máscaras de um encontro, que buscam um relacionamento profundo.

No espetáculo, eles interpretam dois jovens viúvos, Pilar e Bento, que se conhecem por meio de um aplicativo de relacionamentos. O público acompanha as peripécias do casal que precisa conquistar-se mutuamente, em meio a muitas inseguranças e incertezas.

A história da montagem nasceu quando os atores, que são casados na vida real, foram convidados a fazer uma apresentação em Maputo, capital de Moçambique, em prol do Instituto Hakumana, que cuida de crianças soropositivas.

Diante da boa repercussão da peça na África, resolveram levantar o espetáculo, dirigido por ambos a partir do texto cuidadoso de Wagner D’Ávila, e com qual rodam o Brasil.

A direção acerta no tom intimista ao apostar, sobretudo, no jogo entre os atores, o que faz o público embarcar na história, mesmo diante da longa duração. Uma dica: talvez um olhar de fora, já que os atores também são os diretores, possa ajudar a limar reiterações e acentuar o ritmo da obra.

Se os diretores ainda permitem mais uma observação deste crítico, seria interessante uma iluminação poética recortada, que faça diálogo com as nuances do texto, o que certamente fará a obra crescer como espetáculo, sobretudo diante da cenografia clean.

Em termos de atuação, o casal está bastante afinado. Bruno Lopes se destaca com boa pegada para o humor, repleto de trejeitos que despertam o riso no público, fazendo com que os espectadores embarquem nas discussões propostas de uma forma leve.

Priscila Fantin, por sua vez, mostra-se atriz madura, capaz de passear com desenvoltura tanto pela comédia quanto pelas situações mais dramáticas, imprimindo ar realista à sua atuação, o que faz com que boa parte da plateia (sobretudo a feminina) se identifique com as angústias de sua personagem.

Em tempos de mergulho profundo da humanidade nas ditas redes sociais que terminam por isolar cada vez mais o bicho homem em bolhas virtuais, deixando-o distante o convívio com o outro, as questões levantadas neste espetáculo são pertinentes e necessárias.

Precisamos Falar de Amor Sem Dizer Eu Te Amo nos mostra que, para realmente conquistarmos o outro, é preciso que antes o conhecimento profundo de quem somos. A peça explicita que a palavra amor, muito mais do que um dizer sem pensar, é um estado de presença construído diariamente. Em tempos de tanto ódio e intolerância, este é o maior acerto deste espetáculo: ser uma lição de respeito ao próximo.

Precisamos Falar de Amor Sem Dizer Eu Te Amo
Avaliação por @miguel.arcanjo:
 Muito Bom ★★★★
Teatro Folha (av. Higienópolis, 618). Quarta e quinta, 21h. Até 26/3/2020. Compre seu ingresso!

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