Mayara Baptista herda posto de Zezé Motta em Roda Viva do Oficina

A atriz Mayara Baptista passou os últimos meses atuando em uma das peças mais importantes da história do teatro brasileiro, “Roda Viva”, de Chico Buarque, dirigida por Zé Celso com o Teat(r)o Oficina, mais de cinco décadas depois da versão de 1968. Na montagem na qual é um dos destaques do elenco, é impossível não associar sua figura à de Zezé Motta, que integrou o primeiro coro da peça, assim como agora faz Mayara. “Passaram os anos, mas a história continua a mesma. Eu acho que mais do que se perguntar sobre a passagem desse bastão, nós precisamos também entender o porquê de haver somente uma mulher negra […] A representatividade não é somente uma ou duas pessoas negras no elenco de vinte e tantas pessoas. Essa nossa passada de bastão é política, uma vez que essa situação não é somente no Oficina , mas é uma questão estrutural”, avalia.
A jovem atriz paulistana criada no bairro da Casa Verde concedeu esta entrevista exclusiva antes do estouro da pandemia do coronavírus, quando ainda se preparava para reestreia da obra no Oficina no último dia 13, que precisou ser cancelada — o grupo pede ajuda do público para sua manutenção neste momento crítico. Questionada pouco antes da publicação deste texto sobre como está se sentindo diante dessa incerteza da pandemia que assola o mundo, ela respondeu: “Ainda estou tentando lidar. Foi tudo muito rápido. O cancelamento da temporada foi muito triste para todos nós. Mas tomamos a decisão pela vida, nos cuidar é ao mesmo tempo cuidar do outro. A melhor maneira que encontrei para lidar com isso foi me afastando um pouco das mídias digitais, apesar de ser algo difícil ainda mais agora em casa, mas estou usando essa situação pra focar na minha saúde física e mental, lendo e escrevendo”.
A seguir, Mayara fala sobre o trabalho na peça, sobre a representatividade da mulher negra, da infância em meio à arte, de como é ser dirigida por Zé Celso e onde se imagina no futuro. Leia com toda a calma do mundo.
Miguel Arcanjo — Mayara, como você começou na arte e no teatro?
Mayara Baptista — Na verdade, eu cresci com a arte na veia, minha mãe [Rosângela Baptista] foi cantora de samba e dançarina, cantou com nomes que são referências pra mim como Fundo de Quintal, Arlindo Cruz, Emílio Santiago e Alcione, entre outros, já que a lista é grande [risos]. Meu pai [Humberto Miranda] é produtor musical, meu tio é cantor… Então, a arte esteve muito presente desde cedo, mas ainda não tinha encontrado realmente o que eu queria. Então, fui fazer faculdade de Ciência da Computação [risos], fiz dois semestres, depois consegui uma bolsa de estudos no curso técnico de artes cênicas no Senac. Foi aí que eu falei: agora encontrei o que gosto e sei fazer.

Miguel Arcanjo — E como foi parar no Teat(r)o Oficina?
Mayara Baptista — Foi em setembro de 2018, tudo começou com um outro espetáculo que eu fazia que chama Quando Quebra Queima. O pessoal do Oficina foi assistir e nos convidou para apresentar lá no teatro. Quando apresentamos lá o tyazo todo assistiu, inclusive Zé [Celso]. Eles estavam no processo de criação de Roda Viva, depois de uns dois meses da nossa apresentação lá, me mandaram mensagem perguntando se gostaria de integrar o coro de Roda Viva. Ver essa foto no Instagram
Uma publicação compartilhada por MAYARA BAPTISTA (@maybaptistaa) em 22 de Mar, 2020 às 7:18 PDT
Miguel Arcanjo — Como é ser dirigida pelo Zé?
Mayara Baptista — Posso dizer que ser dirigida pelo Zé é um grande aprendizado, gosto muitas vezes de só ficar observando e ouvindo ele falar, ele tem 82 anos e eu 24! Tem muita coisa lá e ao mesmo tempo tem muita coisa aqui também, ele está sempre disposto a ouvir a descobrir coisas novas, ele é um cara muito antenado.
Miguel Arcanjo — O que você sente ao pensar que está no elenco de Roda Viva?
Mayara Baptista — Um mix de coisas, não gosto de endeusar pessoas ou lugares, mas o Teatro Oficina foi uma das coisas que estudei na escola de teatro [risos] Estudar e depois de uns anos estar ali, fazendo essa peça histórica, é algo que ainda não consigo mensurar.

Miguel Arcanjo — Qual situação inesquecível você passou neste espetáculo?
Mayara Baptista — Foi na nossa apresentação do Rio de janeiro, na Cidade das Artes. Eu levei minha mãe para o Rio pra ela assistir a peça e fazia 20 anos ou mais que minha mãe não ia ao Rio de janeiro e minha mãe morou muitos anos lá. Então, proporcionar isso para ela e ver ela lá na plateia foi uma coisa inesquecível e nesse dia foi uma das melhores apresentações da temporada, foi uma coisa linda!

Miguel Arcanjo — A Zezé Motta foi do coro do primeiro Roda Viva. Agora tem você. Como é pegar dela o bastão da representatividade da mulher negra nesta obra histórica do teatro brasileiro?
Mayara Baptista — Eu admiro muito trabalho da Zezé Motta. No nosso programa nós temos uma entrevista com ela onde nós fazemos perguntas sobre essa representatividade da mulher negra no elenco dessa obra histórica. Passaram os anos, mas a história continua a mesma. Eu acho que mais do que se perguntar sobre a passagem desse bastão, nós precisamos também entender o porquê de haver somente uma mulher negra. Sem esquecer das mulheres pretas que já passaram pelo Teatro Oficina: Denise Assunção, Célia Nascimento, Vivane Clara. A representatividade não é somente uma ou duas pessoas negras no elenco de vinte e tantas pessoas. Essa nossa passada de bastão é política, uma vez que essa situação não é somente no Oficina , mas é uma questão estrutural.
Miguel Arcanjo — Daqui a dez anos você se vê onde e fazendo o quê?
Mayara Baptista — Nossa eu sempre tentei pensar onde estaria daqui dez anos em vários momentos da minha vida [risos], mas tudo não sai como o planejado, então deixo essa função para os ventos e o tempo. Estou em um momento ótimo da minha carreira, trabalhando muito, estudando, escrevendo, conhecendo pessoas. Acabei de gravar meu primeiro trabalho no audiovisual, então tem muita coisa legal pra acontecer. Única certeza que tenho é: estarei fazendo teatro daqui há dez vinte trinta anos.
Miguel Arcanjo — Qual a importância desse Roda Viva de 2020?
Mayara Baptista — Ela é principalmente urgente e necessária, é preciso escancarar mais ainda do que já está escancarado que cultura tem sido massacrada pelo governo atual. E a resposta se dá com a arte atuando cada vez mais, não saindo de cena, mesmo sem nenhum patrocínio, na raça somente com o público as pessoas amantes dessa arte.