Crítica | O Estranho Mundo de Grimm se destaca com elenco entregue e revisão dos contos de fadas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Recheados de fadas, princesas, bruxas e príncipes com lições sobre o bem e o mal, os contos dos alemães Irmãos Grimm ganharam notoriedade no século 19. Com o avanço da indústria cultural — sobretudo a Disney — eles se espalharam de forma popular por todo o mundo no século 20, com suas adaptações para desenhos animados e versões hollywoodianas, influenciando o comportamento de gerações.
Contudo, diante da revisão comportamental e histórica que é a tônica deste século 21, os Irmãos Grimm não escapam ilesos, sobretudo quando são revisitados pelos inquietos artistas do teatro. Prova disso é o que acontece no espetáculo O Estranho Mundo de Grimm, criado e dirigido por Ronaldo Saad com jovens artistas do Centro de Pesquisa em Artes (CPA).
Após sessões de sucesso no Teatro Commune, a obra faz residência artística na SP Escola de Teatro, onde pode ser vista na Sala Hilda Hilst, às sextas e sábados, 21h, até 27 de maio de 2022 com ingressos pela Sympla. A dramaturgia, conjunta, é assinada por Alessandro Lopes, Giovana Santiago, May Crepaldi, Ronaldo Saad e Vinicius Nunes
Com assistência de direção de May Crepaldi, a peça navega pelos contos dos Grimm, ressaltando personagens coadjuvantes e ironizando determinados trechos das obras. Em foco, está, sobretudo, o empoderamento feminino, ao contrário das princesas sempre passivas da vontade alheia.
Contudo, a rivalidade feminina, motor de tais contos, segue firme e forte na releitura. Cinderela agora é uma mulher negra, o que traz matizes de discussões étnico-raciais ao espetáculo. A fada-madrinha surge com ares não-binários, o que coloca imediatamente as discussões de gênero no palco.
Ainda há espaço para revisões de João e Maria e A Bela Adormecida, agora, bem mais acordada. É preciso destacar neste contexto os figurinos oníricos de Ângela Schoendorfer e Ronaldo Saad, e a cenografia simples, porém eficiente, de Ângela Schoendorfer e Danilo Rezende.
O espetáculo O Estranho Mundo de Grimm conquista o público com o carisma e a entrega de seus atores. Apesar de conseguir manter essa vivacidade, a direção tem à frente o desafio de conquistar a unidade do conjunto. Seria interessante também um olhar atento para as lentas e silenciosas transições de uma cena à outra: mais agilidade daria vigor à peça, além de fazê-la caber nos 70 minutos de duração anunciados ao público. Este crítico assistiu ao espetáculo em sua estreia em sua nova casa e sabe que, obviamente, tais ajustes são feitos ao longo da temporada.

A luz de Ronaldo Saad e Vinicius Nunes torna-se mais interessante quando apresenta matizes mais sutis e recortadas, no que a fumaça é uma excelente aliada, mas esvai-se em alguns momentos por abrir-se demais, o que faz com que o ambiente de fantasia desanuvie. Afinal, quando se trata de Grimm, não é preciso revelar tudo. Penumbra e recortes, sobretudo em momentos mais dramáticos, podem tornar tudo mais poético e sutil.
Outro detalhe precioso que este crítico deixa como singela contribuição seria esconder a técnica — na sessão vista, a mesa de controle estava justamente de frente para o público, o que por vezes desviava a atenção da cena. Mudá-la de posição ajudaria a concentrar o foco do espectador.
Por fim, é preciso parabenizar o elenco de O Estranho Mundo de Grimm. É perceptível a energia de uma entrega real e desmedida neste espetáculo que marca a retomada do teatro após o hiato de dois anos por conta da pandemia.
De tal modo, estes artistas jovens e vivazes merecem ser nomeados um a um: Breno Borges, Cledson Soares, Danilo Rezende, Denis Felix, Emmanuelly Berbel, Gio Cípola, Jhonata Souzaa, Luiz Vieira, Lucas Duca, Lucival Almeida, Mariah Saphira, May Crepaldi, Marcelo Liborni, Micaela Rodrigues, Myra Saturnino, Patrícia Oliveira, Sofia Falastro e Tilly Garcia.
Guarde tais nomes, pois, certamente, seguirão abrilhantando o teatro brasileiro.
O Estranho Mundo de Grimm
Dir. Ronaldo Saad com CPA (Centro de Pesquisa em Artes)
Avaliação: Bom ✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Quando e onde ver: De 13 a 27 de maio. Sextas-feiras e sábados, às 21h. Ingressos: R$ 15 meia e R$ 30 inteira. Na SP Escola de Teatro – Sala Hilda Hilst – Praça Franklin Roosevelt, 210, Consolação, metrô República ou Higienópolis-Mackenzie, tel. 11 3775-8600. Retire seu ingresso!
Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo desde 2012 e o Prêmio Arcanjo desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por TV Globo, Grupo Record, Grupo Folha, Editora Abril, Huffpost Brasil, Grupo Bandeirantes, TV Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Foi coordenador da SP Escola de Teatro. Integra o júri do Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de SP, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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