Crítica | Peter Pan – O Musical da Broadway se renova com talento na Terra do Nunca ✪✪✪✪

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Fotos ANNELIZE TOZETTO
@annelizetozetto
Peter Pan, O Musical da Broadway (2022)
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪
Quando de sua montagem em 2018, este crítico definiu: “Vigoroso, Peter Pan é um dos melhores musicais já montados no Brasil”. E segue sendo, no retorno de Peter Pan – O Musical da Broadway ao Teatro Alfa em 2022, sobretudo em termos de um espetáculo de entretenimento de alta qualidade técnica dos artistas envolvidos tanto no palco como por detrás dele.

Time criativo experiente
Eles movimentam a engrenagem de ilusão e fantasia idealizada e produzida por Renata Borges — com coprodução de Roberta Juricic —, da Touché Entretenimento, sob comando artístico do encenador José Possi Neto.
A equipe criativa ainda traz outros nomes importantes do teatro musical brasileiro: Alonso Barros, homem por detrás das exigentes e exuberantes coreografias; Carlos Bauzys, seguro na batuta da direção musical criativa e envolvente; além do som cuidadoso de Gabriel D’Angelo; a luz inebriante de Pedro Foriaz e os figurinos impecáveis de Thanara Shönardie.
A isso se somam a cenografia nababesca de Renato Theobaldo e Beto Rolnik, os efeitos especiais de Bruno Junqueira, além dos impressionantes efeitos de voo da ZFX Flying Effects. Ciça Simões assina a direção de remontagem, Vanessa Costa é a diretora residente e Eurípedes Fraga assina como stage manager.
Bianca Tadini e Luciano Andrey conquistam mais uma vez a façanha de fazer uma versão que converse com o público brasileiro, particularizando o universal proposto por Peter Pan e sua turma. A dupla segue afinada e competente na difícil arte de nacionalizar uma obra estrangeira.

Elenco vigoroso
Protagonista absoluto, Mateus Ribeiro está de volta ao papel do menino que não quer crescer, que o colocou como astro definitivo dos musicais brasileiros, e isso antes ainda de seu impressionante Chaves, em Chaves, Um Tributo Musical, no ano seguinte. Agora mais maduro e já consagrado, o ator traz outro tom para o personagem, tornando-o mais denso e nem por isso menos cativante. E o ator merece o sucesso alcançado por sua completude: canta, dança e atua de forma louvável.
Agora, o Capitão Gancho é vivido por Saulo Vasconcelos, medalhão masculino absoluto da história do teatro musical brasileiro e que dá peso a qualquer espetáculo que faça parte. Saulo constrói seu Gancho de forma diferente, e não menos engraçada, de Daniel Boaventura, que fez o personagem divinamente na primeira versão. Saulo imprime seu olhar aguçado ao personagem, não deixando de apresentar seu impecável canto já conhecido de todos e dando ao mesmo a leveza necessária em sua vilania vaidosa.
Carol Costa, grande revelação feminina dos últimos tempos nos palcos paulistanos, protagonista do recente Chicago e a magistral como Chiquinha, de Chaves, Um Tributo Musical, imprime maturidade na construção de sua Wendy, que é a persoangem que abandona a infância rumo à vida adulta, tornando impossível seu par com Peter. A atriz dá a intensidade necessária à grande curva dramática que sua personagem pede.
Dono de intenso carisma, Pedro Navarro permanece roubando todas as cenas como Smee, o fiel e espalhafatoso escudeiro do Capitão Gancho. É o preferido da plateia, este mérito ninguém lhe tira.

Giu Mallen, como a líder indígena Tiger Lilly, também demonstra entrega absoluta à personagem e seus difíceis passos de dança, fazendo dela a necessária aliada de Peter contra Gancho e seus piratas, assim como a doce Sininho de Natacha Travassos.
As crianças na plateia seguem com suas atenções capturadas pelo grandiosismo da produção e intensidade do elenco, sobretudo nos números aéreos de Peter Pan e seus amigos pela Terra do Nunca.
É preciso ainda citar a segura Lia Canineu como Sra. Darling, e os graciosos Luke Lima, Miguel Ryan e Davi Martins, como os irmãos de Wendy.
E este crítico faz questão de nomear o restante do elenco Valentina Oliveira, Ana Varella, Jey Santos, Fábio Galvão, Murilo Ohl, Yasmin Calbo, Caio Zalc, Bruno Albuquerque, Sara Milca, Danilo Santana, Verônica Medeiros, Jean Cruz, Pedro Paulo Bravo, Leonardo Rocha, Rodrigo Monteiro, Leandro Naiss, Vinicius Teixeira, Leandro Marbali e Tiago Weber.

Olhar para a diversidade
Este crítico precisa fazer uma observação importante e com o olhar de incentivo que tem à evolução de nosso teatro: é preciso um maior cuidado em relação a uma maior representatividade étnica em uma superprodução como essa, algo obrigatório e importante recado nos dias em que vivemos.
É notável a ausência de atores de perfil indígena para compor o núcleo de Tyger Lilly e também de atores negros, ausentes inclusive no ensamble de piratas e meninos perdidos. Tal descuido na escalação, que este crítico acredita não ser intencional, sobretudo em tratando-se de artistas, mostra que o teatro musical brasileiro ainda precisa amadurecer diante de temática tema social tão sensível e cara ao mundo contemporâneo: a representatividade nos palcos.
Afinal, qualquer artista conectado com seu tempo percebeu que de 2018 a 2022 muitas coisas mudaram na sociedade — que o diga o fatídico 2020 com as discussões sucitadas pelo movimento Black Lives Matter em todo o mundo, incluindo aí a classe artística. É urgente não repetirmos velhas fórmulas que já se mostraram excludentes.
Assim, um elenco mais diverso teria abrilhantado ainda mais, além de possibilitar releituras mais potentes, a esta remontagem de Peter Pan, O Musical da Broadway.

Musical com frescor
Peter Pan – O Musical da Broadway é uma esmerada produção que conta com um elenco absolutamente entregue e presente, executando difíceis coreografias e manobras aéreas, sem perder o frescor que o espetáculo pede.
Peter Pan – O Musical da Broadway
Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Retire seu ingresso para Peter Pan, O Musical da Broadway
Réplica da produtora Renata Borges à crítica de Peter Pan, O Musical da Broadway
A produtora Renata Borges, da Touché Entretenimento, se pronunciou em sua rede social sobre esta crítica. Além de agradecer pelo texto, também comentou sobre a observação feita pelo crítico sobre a falta de diversidade no elenco de Peter Pan, O Musical da Broadway. “Hoje, encerramos a temporada de Peter Pan, O Musical da Broadway e fui brindada com uma crítica linda de Miguel Arcanjo. Obrigada! E não se preocupe, sempre fui uma produtora atenta a inclusão em todos os aspectos que ela envolve. Inclusive o social, que quase nenhuma produtora realiza. É só olhar para todos os meus ‘elencos’ e produções. Fui inclusive a primeira a colocar Tiago Barbosa como príncipe. Mas as minhas escolhas nunca estarão pautadas em ‘lacração’ ou ‘bandeiras’. Respeito todas as causas e minorias. Porém, as minhas escolhas, independente de qualquer coisa, são pautadas no TALENTO! Viva a arte!”

Resposta do crítico Miguel Arcanjo Prado
Este crítico reitera que Renata Borges, da Touché Entretenimento, foi pioneira em escalar um ator negro para o papel de príncipe em um grande musical: Tiago Barbosa, em Cinderella, o Musical, em 2016, fato de importância histórica para a representatividade negra nos espetáculos. Este crítico também reforça que a crítica, feita de forma construtiva e respeitosa, não é sobre “lacração” ou “bandeiras”, tampouco este crítico considera que uma maior representatividade étnica nos elencos tenha a ver com tais palavras ou em deixar de pautar a escalação no “talento”. O que este crítico pontua é que uma maior equidade étnica nos palcos torna o teatro mais representativo de nossa sociedade, e que isso é urgente no mundo contemporâneo e poderia ser pensado por todas as produções. O núcleo indígena de Peter Pan teria sido uma boa oportunidade para se escalar atores talentosos com este perfil. Em um musical de excelência direcionado a toda a família, é de importância crucial que crianças negras e indígenas também possam enxergar no palco atores e atrizes talentosos que se pareçam com elas.
Blog do Arcanjo mostra Peter Pan, O Musical da Broadway no olhar da fotógrafa Annelize Tozetto
























Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo desde 2012 e o Prêmio Arcanjo desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por TV Globo, Grupo Record, Grupo Folha, Editora Abril, Huffpost Brasil, Grupo Bandeirantes, TV Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Foi coordenador da SP Escola de Teatro. Integra o júri do Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de SP, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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