Crítica | Evita Open Air faz história com brilho de Myra Ruiz e elenco talentoso em formato inédito ✪✪✪✪✪

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Evita Open Air
Avaliação: Ótimo ✪✪✪✪✪
Se você deseja viver uma experiência inesquecível, corra para ver Evita Open Air, o grandioso espetáculo montado em arena a céu aberto no Parque Villa-Lobos, em São Paulo, até o fim de agosto.
Trata-se do emblemático musical sobre Eva Perón, a Evita, primeira dama da Argentina, vivida com a soberania necessária pela estrela Myra Ruiz no auge de sua carreira.
O texto original de Tim Rice e música de Andrew Lloyd Webber produzido na Broadway em 1978 ganhou versão ao ar livre em Londres em 2019, que foi vista pelos produtores brasileiros da Atelier de Cultura, que resolveram trazer a obra ao Brasil, em ousada ação sob comando de Carlos Cavalcanti, Cleto Baccic e Vinícius Munhoz.
Trata-se do primeiro musical a céu aberto no país, inaugurando historicamente o formato — já presente em metrópoles como Londres no The Regent’s Park, Nova York no Central Park e em Buenos Aires no Parque Centenário. O que eleva o teatro musical brasileiro a um novo patamar de entretenimento semelhante ao dos grandes festivais de música, coisa que São Paulo sabe tão bem fazer. Evita Open Air é uma das melhores produções do ano no teatro brasileiro.

Mulher histórica
À frente do seu tempo, Evita Perón foi a mulher mais emblemática da política da América Latina no século 20 e a responsável pelo voto feminino na Argentina e pelos avanços de leis trabalhistas. Conhecida como a “mãe dos descamisados”, ela foi muito além do posto de primeira-dama.
Com seu carisma, militância peronista e discursos inesquecíveis, logo Evita tornou-se a figura central durante o primeiro e segundo governo de seu marido, o presidente Juan Domingo Perón (1895-1974), entre os anos de 1946 e 1955 — ela morreu de câncer aos 33 anos em 1952.
Evita chegou a ser cotada para ser vice-presidente na reeleição, mas foi impedida pela resistência militar e da aristocracia portenha a seu nome.
Perón foi presidente pela terceira vez da Argentina entre 1973 e 1974, quando estava casado com sua segunda mulher, Isabelita Perón, vice-presidente desta chapa, o que para Evita não foi possível. Mas essa é outra parte da história.
Voltemos à Argentina no auge do poder do casal Evita e Perón, foco deste fascinante musical.

Uma Evita soberana
O protagonismo que Evita teve na vida pública argentina nos velozes 33 anos que viveu se repete na superprodução da Atelier de Cultura. Interpretada com entrega desmedida por Myra Ruiz, uma das estrelas mais talentosas de nossos musicais, Evita é o ponto nevrálgico do espetáculo.
Tudo orbita em torno do carisma e da destreza técnica de Myra. E a direção e toda equipe souberam aproveitar o talismã em mãos. A atriz apresenta uma construção não só crível como tocante de Evita. É evidente para o espectador a entrega e o respeito que Myra sente pela mulher Evita, o que a faz defendê-la com unhas e dentes no palco, enchendo a personagem de humanidade.
Mesmo atuando em uma megaestrutura, a protagonista constrói uma relação intimista com o público. Com sua icônica Evita, Myra Ruiz se consolida entre as grandes estrelas da história do teatro brasileiro.
É impressionante ver o domínio que Myra Ruiz tem da cena , não só da interpretação dramática, mas também do domínio técnico do canto e da dança — exuberante, por exemplo, na ponta que exibe em um rápido pas de deux com o enérgico Che vivido por Fernando Mariano.
Em um mercado repleto de pessoas fora do ramo que chegam aos musicais por fama televisiva ou seguidores nas redes, mas sem talento à altura, ver esta atriz em cena é uma dádiva.
Myra Ruiz é realmente uma atriz completa e possui o trio de virtuosismo que toda estrela de musicais deveria dominar.

Um Perón apaixonado
Obviamente que a Evita de Myra Ruiz não brilharia tanto se não fosse amparada por seus colegas de cena no intuito de fazer com que sua história atravesse o coração das pessoas. E cumprir tal amparo não é tarefa fácil.
Cleto Baccic faz isso muito bem com seu Perón, espécie de égide de Evita. Com delicadeza, o ator vencedor do Prêmio APCA ainda faz ressaltar o homem apaixonado por uma mulher e que, mesmo diante de todo poder alcançado, não consegue salvar sua amada, em uma dessas peças trágicas que a vida encena.

Um Che visceral
Fernando Marianno, pela primeira vez no posto de protagonista em 15 anos de carreira nos musicais, chama a atenção com a energia visceral dada ao seu Che.
O personagem, que faz alusão a outro argentino que marcou o século 20, o médico e líder comunista da Revolução Cubana de 1959 Che Guevara, funciona como narrador da história, ora questionando os logros peronistas, ora reiterando a história de Evita. Fernando Marianno agarra o personagem e suas contradições com vigorosa construção, entregando a ele até sua última gota de suor.

Elenco fantástico
Querer enquadrar o musical Evita Open Air a uma mera questão política ou de mercado é ter os olhos cegos para enxergar o talento de sobra dos 28 atores em cima dos 128 metros quadrados de palco em formato da bandeira da Argentina.
Evita Open Air tem um dos mais entregues elencos que este crítico já presenciou. É admirável a intensidade com que esses artistas cantam e dançam, deixando o público embasbacado.
Felipe Assis Brasil dá toda a malemolência latina a seu Agustín Magaldi, o cantor de tangos e primeiro amante de Evita. Ainda na categoria ex dos protagonistas, Verônica Goeldi imprime o desalento de sua personagem, a amante de Perón, trocada por Evita.
As meninas Evita são formidáveis: Anna Beatriz Simões, Belle Rodrigues e Isa Camargo imprimem aquele encantamento que só um elenco mirim traz.

E é preciso mencionar um por um dos talentosos e versáteis integrantes do ensamble de Evita Open Air: Alicio Zimmermann, Amanda Doring, Bia Castro, Bruno Ospedal, Cláudia Rosa, Della, Éri Correia, Fernanda Biancamano, Fernanda Muniz — divina e repleta de sensualidade —, Gigi Debei, Gui Leal — com o devido e merecido destaque em cenas cruciais —, Ingrid Sanchez, Marco Azevedo, Mari Rosinski, Paulo Grossi, Rafael Barbosa, Sandro Conte, Vinicius Cafer, Alice Zamur e Danilo Martho. Um time e tanto.

Direção pop
E a direção do canadense John Stefaniuk deixa Evita Open Air mais perto do público contemporâneo. Ao apostar no formato concebido cenicamente para uma arena a céu aberto, o diretor faz com que Evita se aproxime das pessoas para além do julgamentos que esta mulher foi vítima durante toda sua vida.
O espetáculo cresce ao apresentar Evita, sobretudo, como uma mulher. Mulher esta que sofreu na pele os preconceitos por ser uma atriz de origem pobre que ousou a chegar à Casa Rosada. A direção deixa evidente o machismo midiático que Evita sofreu, assim como sobre sua origem e profissão.
Evita logrou não só a se tornar a primeira-dama da Argentina como também em se tornar uma figura-chave do poder argentino, idolatrada até os dias de hoje e chamada de “Evita capitana” pelas novas ondas feministas que recentemente fez aprovar a lei do aborto na Argentina, com seus lenços verdes frente ao Congresso.

Stefaniuk mostra como a mídia argentina, completamente aliada aos interesses das oligarquias de Buenos Aires, atacou Evita constantemente, não respeitando sequer o câncer que a consumiu rapidamente.
Como aceitar uma moça do interior que de repente tinha mais poder do que as mocinhas e generais de famílias tradicionais da capital?
O que mais incomodava em Evita era o fato de ela não ter uma atitude subserviente. Muito pelo contrário, Evita enfrentava os poderosos e não se rogava em demonstrar de que lado da história estava: o lado do povo, ou melhor, dos descamisados, como ela falava e Myra tão bem interpreta.
E foi no coração desse povo que Evita sempre habitou e segue habitando neste musical que reconstrói para os brasileiros, ainda tão desconhecedores sobre a cultura e a história de nosso principal país vizinho, a sua histórica imagem.

Time criativo
A equipe criativa de Evita Open Air merece ser citada por ter encontrado soluções inteligentes para um espaço diferente do tradicional teatro. A orquestra regida pela diretora musical Vânia Pajares atua nos bastidores de modo magistral. Mesmo com o vento cortante e o bem-vindo canto dos pássaros, Gaston Briski criou um design de som impecável ao lado de Alejandro Zambrano.
Victor Mühlethaler apresenta uma versão em português brasileiro coerente e respeitosa com a original, sem deixar de colocar pitadas de frescor. O visagismo de Feliciano San Roman aguça e embeleza os personagens.

Morgan Large criou uma cenografia multifuncional e impactante — a bandeira argentina no palco que remete às Ilhas Malvinas é um luxo. Floriano Nogueira brilha com coreografias potentes e exigentes, criadas com Anelita Gallo.
A luz de Ben Jacob com Guilherme Paterno lida com uma sessão diurna, na qual o sol poente funciona como metáfora da vida de Evita que se esvai, e uma noturna, onde o brilho ganha vez, apostando em uma funcional luz clara — na sessão noturna, teria ido bem um pouco mais de luzes de frente, mesmo que no piso, mas é algo a ser aperfeiçoado, afinal é o primeiro musical ao ar livre.
Ligia Rocha, Marco Pacheco e Jemima Tuany fizeram figurinos elegantes e pungentes, alguns já inesquecíveis como o terno azul de Perón, o vestido vermelho da bailarina de tango e o vestido de festa de Evita — que Myra Ruiz veste ao cantar impecavelmente a eterna canção Não Chore por mim, Argentina.

Ponte cultural
Um espetáculo como esse também serve como uma ponte cultural e educativa que aproxima os dois países irmãos. E é interessante que um canadense comande tal missão diplomática teatral.
É preciso, para concluir esta crítica, parabenizar a iniciativa dos três produtores envolvidos, Carlos Cavalcanti, Vinícius Munhoz e Cleto Baccic, ao montar este espetáculo. É um ato de extrema coragem produzir um musical a céu aberto, com todos os riscos que isso implica, desbravando um novo formato para o teatro musical.

A praça de alimentação, democrática e aberta a todos os frequentadores do Parque Villa-Lobos, com seus bocaditos argentinos como choripanes, vinos e empanadas e até mesmo DJs entre as sessões, é um charme à parte. Afinal, gastronomia é herança cultural, assim como a música. Este crítico até deixa uma sugestão para as futuras apresentações: que os DJs toquem sucessos da música argentina, ainda tão desconhecida dos brasileiros.
Também foi louvável a homenagem que Evita Open Air prestou às atrizes que já viveram a personagem além da atual Myra Ruiz: Claudya, Marina Gabetta, Paula Capovilla e Bianca Tadini, demonstrando que sabem respeitar e valorizar a história de nosso teatro musical.
Evita Open Air entra para a história do entretenimento brasileiro como uma superprodução na qual o talento é a principal vitória.

Evita Open Air
Avaliação: Ótimo ✪✪✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Retire seu ingresso para Evita Open Air!
Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo desde 2012 e o Prêmio Arcanjo desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por TV Globo, Grupo Record, Grupo Folha, Editora Abril, Huffpost Brasil, Grupo Bandeirantes, TV Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Foi coordenador da SP Escola de Teatro. Integra o júri do Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de SP, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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