Com a atriz Simone Zucato de protagonista ao lado de Cassio Scapin, Vera Zimmermann e Thiago Adorno, formando um dos elencos mais afiados do ano, Sylvia é uma comédia que poetiza e sublima a relação entre o homem e seu cachorro. Neste caso, uma cachorra cujo nome é o título da peça. A pet é adotada por um engenheiro de meia idade chamado Greg, que se encontra em um morno casamento afetado pela síndrome do ninho vazio. Ao levar a cachorrinha encontrada no Central Park para seu apartamento, ele cria involuntariamente uma disputa acirrada entre a cadelinha, intepretada de maneira humanizada por Simone, e sua mulher, vivida por Vera, conflito repleto de várias camadas de significados. Trata-se de uma típica comédia de classe média nova-iorquina, muito bem escrita por um sensível A.R. Gurney, que estreou seu texto no circuito off-Broadway em 1995, com Sarah Jessica Park (antes do arrasa-quarteirão Sex and The City) no papel-título.
Depois, a peça rodou os Estados Unidos e chegou à Broadway só em 2015, com a elogiada Annaleigh Ashford como Sylvia e Matthew Broderick (astro do filme Curtindo a Vida Adoidado e marido de Sara Jessica Parker) como seu dono. Por aqui, a obra teve primeira montagem em 2002, com Louise Cardoso como a cachorra sob direção do saudoso Aderbal Freire-Filho. Em 2019, ganhou sua segunda montagem nacional, já com Simone Zucato no papel título e na produção — o que se repete nesta terceira encenação —, além de Cassio Scapin como o dono, a saudosa Françoise Fourton como a mulher e Rodrigo Fagundes nas personagens coadjuvantes. Nesta encenação, Zucato, que exerce protagonismo generoso com seus colegas, e um emotivamente seguro Scapin mantêm o afinado jogo entre pet e dono, acrescidos do talento dramático de Zimmermann, excelente como a mulher que se vê perdendo terreno para um animal dentro de sua própria casa, e o delicioso alívio cômico promovido pelo talentosíssimo Adorno, que vive três diferentes e hilários personagens, com os quais rouba a cena. O diretor Gustavo Wabner constrói uma encenação elegante e precisa — com iluminação sofisticada de Wagner Freire e trilha sonora nostálgica por Daniel Maia —, ora comovendo, ora divertindo o público, que se surpreende ao perceber que homens e animais estão mais próximos do que este mundo altamente tecnológico e veloz quer nos fazer crer. A peça ainda tem cenografia de Camila Schimtz, figurino de Marcelo Marques e visagismo de Anderson Bueno, além de preparo vocal de Edi Montecchi. De forma surpreendente, Sylvia é uma comédia deliciosamente leve e profunda.
★★★★ SYLVIA Avaliação: Muito Bom Crítica por Miguel Arcanjo Prado 20 de outubro a 10 de dezembro de 2023. Sexta e sábado, 20h, domingo, 17h. No Teatro Porto (al. Barão de Piracicaba, 740, Campos Elíseos), em São Paulo. Compre seu ingresso!
Sylvia no Teatro Porto: Blog do Arcanjo entra com exclusividade no camarim da comédia da Broadway