Cidade de Deus será restaurado com uso de inteligência artificial, diz CEO da O2 Filmes na 19ª CineOP

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Um dos mais emblemáticos filmes do cinema brasileiro e que revolucionou a linguagem na sétima arte em todo o mundo, com direito a quatro indicações ao Oscar, Cidade de Deus será restaurado com uso de inteligência artificial. A informação foi dada pelo CEO da O2 Filmes, Paulo Barcellos, durante participação na 19ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. O evento, focado no cinema como como patrimônio, preservação, história e educação, começou no último dia 19 e vai até esta segunda, 24 de junho, com 153 filmes na cidade histórica mineira, sob realização da Universo Produção,

Mais de duas décadas depois do lançamento, Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, passa por um processo de restauração. Em debate realizado na tarde deste sábado, 22 de junho, Paulo Barcellos, CEO da 02 Filmes, contou que a produtora tem trabalhado numa recuperação inédita do longa-metragem.

De acordo com o executivo de uma das principais produtoras do País, o processo inclui resgate de negativos originais, transição de formatos de imagem e até recursos de inteligência artificial para ajustar imperfeições técnicas, efeitos de pós-produção e outros detalhes em desenvolvimento. Barcellos afirmou que a própria O2 está realizando a restauração e ainda não há previsão de finalização ou lançamento.

IA
O CEO revelou que será usada tecnologia de inteligência artificial para alguns ajustes no filme. “A IA será fundamental para automatizar a limpeza de ‘frames’, detectando falhas, trechos faltantes, imperfeições do original e nos dando opção de escolhermos como ajustar da maneira que decidirmos”, disse ele.
Por conta de necessidades técnicas específicas, parte do processo de restauração está sendo feita num laboratório em Los Angeles, a partir do envio de 18 horas de material bruto filmado pela equipe de Fernando Meirelles que passará por processo de limpeza. Ao final dessa “lavagem” dos negativos, conforme Paulo Barcellos, “Cidade de Deus” passará pela digitalização e conterá imagens em altíssima resolução, algumas delas em tecnologia 4k e 6k.
Ele ainda revelou que serão feitas duas versões restauradas do filme. Uma conterá modificações em efeitos sonoros e visuais, gerando um filme tecnicamente inédito. A outra versão será mais fiel à original de 2002, mantendo elementos tais como vistos na época com melhorias gerais nas imagens e sons.

CineOP discute IA no audiovisual
A 19ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto foi espaço, neste sábado, 22 de junho, de debates até então inéditos sobre os impactos da inteligência artificial no âmbito do audiovisual. Em duas mesas realizadas ao longo do dia, profissionais do governo e de produtoras privadas comentaram de que forma a IA pode contribuir no trabalho, ao mesmo tempo em que levantaram problemas éticos e tecnológicos sobre a questão. As mesas destacaram como a inteligência artificial pode influenciar desde a preservação de acervos até a criação de novas obras, trazendo à tona questões sobre o controle e a utilização dessas tecnologias no Brasil.
Para o pesquisador e cineasta Almir Almas, há necessidade urgente de a comunidade acadêmica e profissional se posicionar de maneira mais proativa frente às tecnologias de IA. “A inteligência artificial coloca para a gente um desafio enorme. Estamos, enquanto estudiosos, pesquisadores, educadores e arquivistas, muito atrasados em relação a isso, o que nos coloca numa posição muito frágil, que é a de ser controlado por ela, quando a gente devia estar na ponta, no controle”, afirmou Almas. “É preciso entender isso como uma realidade de impacto contínuo”.
A pesquisadora Esther Hamburger apontou a dualidade da IA como ferramenta de potencialização e de risco. “Pensar que ela pode ser um sistema de classificação mais potente e que tem também uma vertente generativa que ainda é muito nova e que está aí para nossas pesquisas é essencial”, disse Hamburger.
Ela enfatizou a importância de controlar os processos de captação de dados e os algoritmos para evitar que eles se tornem ferramentas opressoras, especialmente no contexto das plataformas de streaming e de outras mídias digitais, que é a maior urgência do momento. Na visão de Hamburger, o desafio no Brasil é ainda maior que em outras partes do mundo quando se trata da preservação de acervos televisivos e vídeos populares antigos, entre outros materiais que, para ela, precisam de atenção.
Marcos Alves de Souza, secretário de direitos autorais e intelectuais do Ministério da Cultura, abordou questões legais e éticas envolvendo a aplicação da IA na restauração de filmes e levantou algumas questões. “Nas obras audiovisuais, a gente tem uma série de controvérsias com implicações de ordem ética, estética, técnica e legal. O uso da IA enriquece ou distorce o processo de compreensão histórica do legado na audiovisual?”, questionou.
Apesar das controvérsias, o secretário fez uma definição direta sobre o que se considera criação, de fato, e que a diferenciaria de recursos de IA. “Só é obra protegida (por leis de direitos autorais) o que é criação do espírito humano, da ordem do imaterial, do intelecto, das emoções, dos medos, da criatividade. Então teremos que olhar isso quando entra a IA como ferramenta utilizada na própria criatividade humana”. Uma das preocupações do secretário, portanto, é de que forma o desenvolvimento da inteligência artificial vai criar novas dúvidas e questões em relação a direitos de autor e de patrimônio.

A 19a edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, único evento brasileiro a enfocar o cinema como patrimônio, preservação, história e educação, acontece até o dia 24 de junho na cidade histórica com uma vasta programação de filmes atividades gratuitas, sessões de cinema, homenagem, oficinas, workshops, masterclasses, lançamentos de livros, exposição e atrações artísticas. Além de sessões presenciais, o evento vai romper fronteiras e terá sessões especiais na plataforma da mostra (cineop.com.br), no streaming do Itaú Cultural Play e na TV UFOP, ampliando as janelas de exibição para quem não puder estar em Ouro Preto.
Colaborou Solange Correia
*O Blog do Arcanjo viaja a convite da CineOP e Universo Produção.
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo desde 2012 e o Prêmio Arcanjo desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por TV Globo, Grupo Record, Grupo Folha, Editora Abril, Huffpost Brasil, Grupo Bandeirantes, TV Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Foi coordenador da SP Escola de Teatro. Integra o júri do Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de SP, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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