Teatro Garagem celebra 20 anos com ciclo de leituras de nomes consagrados no projeto Portas Abertas

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Localizado em um dos bairros mais tradicionais da capital paulista, a Vila Romana, o Teatro Garagem (TG, como é carinhosamente chamado) comemora 20 anos de história com o projeto Portas Abertas, que se desdobra em uma série de leituras e oficinas voltadas para a dramaturgia brasileira. As atividades programadas para outubro incluem leituras de obras de notáveis como Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Mário de Andrade, e Clarice Lispector, prometendo um rico mergulho na literatura nacional. A direção do espaço é da atriz Anette Naiman.
Tudo começou em 24 de setembro, quando o Teatro Garagem abriu suas portas para um grupo de atores 60+, que apresentaram Noturno Amarelo, uma peça de Lygia Fagundes Telles, sob a direção de Michelle Boesche.
As terças-feiras de outubro foram reservadas para encenações de texto clássicos: no dia 9 foi lido Tu Não Te Moves de Ti, de Hilda Hilst; já no dia 16, foi a vez da leitura de Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, com Jhonnã e Roquildes Junior; dia 23, O Ovo e a Galinha, de Clarice Lispector, com Débora Duboc e Carol Badra; e por fim, no dia 30, Noturnos, de Plínio Marcos, com artistas como Anette Naiman, Conrado Costa, Jhonnã Bao (dramaturgia), Leonardo Silva, Aninha Rocha, Fania Espinosa e Rodolpho Correa, em diferentes atos.
Fundado em 2004 pela atriz Anette Naiman, o TG se destaca não apenas pela longeva trajetória, mas pela resistência e a busca incessante por inovação nas artes cênicas. Essa pequena joia do bairro Vila Romana, ao longo dos anos, se transformou em um verdadeiro farol cultural, promovendo e celebrando as mais diversas formas de expressão artística.
As celebrações de 20 anos do Teatro Garagem incluem a inauguração da Garagem Cênica, onde a primeira atração será o monólogo Entre Borboletas, inspirado na obra de Caio Fernando Abreu. O ator Franz Granja dará vida a um personagem chamado Caio, uma homenagem ao renomado escritor gaúcho.
Recentemente, o Teatro Garagem foi beneficiado pela Lei Paulo Gustavo, permitindo a melhoria de suas instalações e a ampliação do público atendido. Um exemplo dessa nova fase é a leitura dramática de Noturno Amarelo, que é parte de um projeto com foco na maturidade, voltado para os cidadãos com 60 anos ou mais. Para o público mais jovem, a oficina de Abajur Lilás, de Plínio Marcos, ministrada pela atriz Eliete Cigarini, possibilitou um intercâmbio entre gerações e o desenvolvimento de novas vozes na cena teatral.
As comemorações dos 20 anos do Teatro Garagem contam com uma programação especial, repleta de leituras e eventos gratuitos. Os interessados podem conferir as próximas atividades no instagram do espaço.
Anette Naiman fala sobre o Teatro Garagem
No ano 2000, resolvi começar uma construção no pé direito da garagem da minha residência, um sobrado antigo no Bairro Siciliano/Lapa, abrigando o que se tornaria um espaço extra para ser utilizado como sala de bagunça, uma brinquedoteca para meus filhos. Na construção deste mezanino, foi necessário fazer um desnível no piso para que o portão da garagem pudesse abrir. Quando o piso ficou pronto, fiquei maravilhada com o que vi, pois o que era a princípio um estorvo se transformou em um palco. Ao mesmo tempo, pensava na abençoada possibilidade de fazer minha arte sem ter que ficar longe dos meus filhos ainda pequenos e um que ainda não tinha nascido – quando comecei o mezanino estava grávida.
Foi a partir dessa feliz “coincidência” que nasceu a história do atual Teatro Garagem, na época apenas restrito a caixa preta: Teatro da Garagem, que se tornou na verdade a minha sala de bagunça.
Um belo dia dentro dessa caixa preta, fui invadida por uma emoção catártica, pois percebi que aquela ela era a manifestação do mesmo sótão da minha imaginação de infância: menina muito pobre, criei um sótão e contava para minhas amiguinhas que lá eu tinha todos os brinquedos possíveis e imaginários da época. Tudo fruto de uma criança que já sonhava com tantas histórias lúdicas. Eu era uma menina mentirosa, mas a minha mentira servia para alegrar meus amiguinhos e adorava saber que eles acreditavam nas minhas mentiras “sinceras” e embarcavam nas viagens dos brinquedos e brincadeiras imaginárias.
Foi nesta noite que além das lágrimas entendi muito da minha mitologia pessoal até aquele momento. Tinha construído de fato aquele sótão da infância e com o mesmo propósito: contar ali histórias para emocionar, alegrar, embelezar e dar mais vida as pessoas; acima de tudo, ser livre para criar! A liberdade a favor da minha criação foi minha grande motivadora na luta pela existência do meu espaço!’
Anette Naiman
fundadora do Teatro Garagem
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo desde 2012 e o Prêmio Arcanjo desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por TV Globo, Grupo Record, Grupo Folha, Editora Abril, Huffpost Brasil, Grupo Bandeirantes, TV Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Foi coordenador da SP Escola de Teatro. Integra o júri do Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de SP, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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