Marina Sena lança Coisas Naturais, álbum maduro em que mergulha no pop cheio de brasilidade

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Com reportagem de
RAPHAEL ARAÚJO BARBOZA
Marina Sena volta às suas origens de brasilidade e demonstra maturidade em Coisas Naturais, seu terceiro álbum, no qual navega por ritmos brasileiros como samba, bossa nova e funk carioca, além de latinos como reggae e reggaeton com leveza e propriedade. “É o álbum que mais reflete minha aura musical por completo”, ela diz ao Blog do Arcanjo. A sincrética capa do álbum, com Marina como uma deusa hindu com vários braços, é uma alegoria da bem sucedida bricolagem sonora que a artista entrega neste novo trabalho.

A cantora de Taiobeiras, no Norte de Minas, integrou as bandas A Outra Banda da Lua e Rosa Neon e chegou ao estrelato em seu primeiro disco solo, o excelente De Primeira (2021), lançado de modo independente e que viralizou o hit Por Supuesto. Depois, apostou em uma musicalidade de tessitura mais densa, urbana e eletrônica em Vício Inerente (2022), disco de estreia na multinacional Sony. Agora, em Coisas Naturais, Marina volta a se aproximar do público de brasilidades que a venerou em De Primeira, mas buscando ampliá-lo ainda mais, com baladas que têm tudo para virar hits de FM.

Crítica do álbum Coisas Naturais de Marina Sena por Miguel Arcanjo Prado
★★★★
Coisas Naturais
álbum de Marina Sena
Crítica por
Miguel Arcanjo Prado
Avaliação: Muito Bom
Marina Sena volta para si e recupera suas origens musicais em Coisas Naturais, fazendo as sonoridades que fazem a sua cabeça conversarem com a cantora pop de sucesso que ela se tornou. Tem música para ouvir na praia, dançar forró agarradinho, sambinha, bossa nova e reggae para escutar na cachoeira e até funk carioca (ou mineiro?) para estremecer a pista. E ainda há espaço para uma música pancada endereçada ao antigo ex. Destaque para as baladas solares, perfeitas para tornarem-se hits de FM e o público cantar uníssono nos shows. Com seu terceiro álbum volta, mais madura, ao público de origem e demonstra que tem cacife para ampliá-lo ainda mais. Ela tákitá. Muito bom.
FAIXA A FAIXA
1 – Coisas Naturais: A sonoridade do Brasil profundo relida pelo pop vibra nesta faixa, repleta de malemolência do Norte mineiro e com andamento para dançar forró.
2 – Numa Ilha: Canção praieria de ares árabes que envolve num ritmo de verão, estação que já consagrada por Marina nos tempos de Rosa Neon em Ombrim.
3 – Desmistificar: A canção conversa com o mangue beat de Chico Science com a fusão pop do maracatu pernambucano ao estilo Marina Sena. O canto das mulheres do Norte de Minas se transmuta na voz de Marina no fim da canção: “Você vai ver meu sorriso”.
4 – Anjo: A bossa nova apaixonada de ares eletrônicos conversa com a Balada do Amor Inabalável dos conterrâneos Skank. A voz em falsete de Marina Sena inova ao apresentar tessitura inédita à sonoridade da artista. Hit pronto para FM: Atenção rádios Nova Brasil, Alpha e Inconfidência, já podem colocar na programação.
5 – Tokito: A ítalo-brasileira Gaia faz feat ao lado da portuguesa Nenny neste hit de reflão chiclete, com plus de Marina cantando como as mulheres do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha. É Marina Sena transformando seu local em universal, como fazem os grandes artistas.
6 – Sem Lei: A balada pop com inspirações na bossa nova também tem tudo pra ser hit de FM tranquilinha no fim da tarde.
7 – SENSEI: A canção etérea e repleta de efeitos é um respiro de suavidade no meio do álbum, mesmo em tom melancólico de amor que chega ao fim.
8 – Lua Cheia: O arrocha típico de bar de beira de estrada com aquele tecladinho Cassio dos anos 1990 traz o Brasil popular para o álbum de Marina Sena.
9 – Combo da Sorte: O reggae, gênero de paixão de Marina Sena, dá o tom nesta faixa, em uma execução tradicional do gênero jamaicano sincronizada na vibe de Jah. “É o amor que me faz enxergar meu melhor momento. Isso não vai passar, é vício”, ela canta.
10 – Mágico: Outra balada ao estilo FM brasilidades do álbum, é uma canção solar que poderia ser um hit adulto do Balão Mágico: “Eu tô feliz, não tô pensando mais besteira”, canta. O refrão chiclete conclama a vibe da felicidade: “Você tá precisando mesmo de um amigo, eu posso ser seu guia, te buscar na madrugada pra dar um giro, ver a cidade comigo, no final de semana a gente toma uma gelada”. Bem mágico.
11 – Doçura: Com feat de presença do trio Çantamarta, o estilo centro-americano reggaeton traz a tropicalidade latina caribenha contemporânea para o álbum, com potência para colocar Marina em diálogo com fãs dos países vizinhos.
12 – CARNAVAL: A energia em riste deste bem produzido funk carioca, com direito a introdução radiofônica antiga, é capaz de sacudir e lotar até a mais esvaziada pista em questão de segundos. “Hoje cê pode me esquecer, é Carnaval no Brasil”, avisa. Com cerca de 1 minuto, a música é curtinha como um orgasmo.
13 – Ouro de Tolo: O título da bossa nova vingativa que pega emprestado o título do clássico hit de Raul Seixas — no qual o baiano faz um balanço do sucesso com grande melancolia — é a grande pancada do álbum. Marina chama o ex de “hipócrita” que a “sugava”. E diz: “Me enganei, eu me traí, nem tudo que reluz é ouro. Seu amor é ouro de tolo”. E ainda declama, tal qual Maria Bethânia, para exorcizá-lo (coisa que já tinha feito com o ex anterior em Voltei pra Mim, hit do De Primeira). Ela canta: “Chorei por mim, porque não vi que você nunca coube aqui, acho que vi, me enganei, eu me traí”. E depois declama: “Eu tenho meus orixás, e não tem nada no mundo que eu não saiba, eu boto fogo no seu pavio, sem mim você não é nada”.
Entrevista com Marina Sena sobre Coisas Naturais
Marina Sena conversou com o Blog do Arcanjo sobre o novo trabalho pouco antes de seu lançamento, nesta segunda, 31 de março.
Coisas Naturais
Questionada quando começou a criar o novo trabalho, Marina responde: “Como comecei esse álbum? Eu estava já fazendo algumas músicas no violão e decidi ir para o meio do mato, e aluguei um sítio [em São Roque, São Paulo] com uma galera, A Outra Banda da Lua, vários músicos… e então fiz o que sempre sonhei: montei uma banda no meio da sala com a melhor tecnologia para fazer música”, revela.
“Eu estava dez dias de repouso e decidi fazer músicas. Surgiu de uma maneira muito natural, então o nome não vem só por ser na natureza. Durante o dia todo um fluxo de música acontecia e gerava uma música. Eu também não me forcei em nada momento algum, tudo que foi feito saiu de mim naturamente, sem muito esforço. O maior esforço foi elaborar essa música e produção, as melodias e métricas, deixar cada vez mais personalizada”, afirma.
Sobre o nome do álbum, Marina descreveu: “Consegui passar a sensação de tudo que eu queria naturalmente, além de muita técnica. Uma das primeiras faixas a surgir foi Coisas Naturais, e quando falei o nome, brilhou e virou nome do álbum. Me representa e tem tudo a ver comigo. Não destoa da minha personalidade”, pontua.

Bossa nova e brasilidades
Falando em estilo, apenas um gênero é mais frequente no projeto: “A bossa nova se repete durante o álbum, mesmo que com uma roupagem diferente. Tem hora que é uma Bossa Rock ‘n Roll, as vezes neobossa… A bossa nova vai acontecendo no álbum”, conta.
“É o gênero que mais se repete, o restante não. Mas não sei se ele define o álbum.. há músicas bem marcantes que definem mais o álbum, mas a Bossa Nova aparece bem ali. Uso de ritmos bem brasileiros, uso minha raiz do interior de Minas, muita coisa me atravessa ali. Congado mineiro, sertanejo, do sertão de Minas… atravessa ali minha construção e personalidade rítmica, mas bem brasileira. Brasil profundo e também muitas ifluências latinas com toque de gente brasileira”, explica.
Espelho da artista
Quando ouvio o resultado final do novo disco, Marina Sena ficou feliz. E explica o porquê. “É o álbum que mais me representa e que mais gostei do resultado final. Se não fosse meu, eu ouviria ele direto. Muita coisa que não consegui fazer nos outros dois álbuns, consegui encaixar aqui, a minha ancestralidade […] consegui trazer isso para essa Marina Sena que é pop. Olho com orgulho e falo: ‘consegui’. […] Nesse álbum, consegui sintetizar melhor tudo que sou eu. Sou uma pessoa moderna, mas que busca tradição e ancestralidade o tempo todo, e consegui tornar isso e criar algo novo. Consegui fazer uma movimentação bem específica na minha trajetória”, diz.
Manter-se no suceso não é fácil. E Marina, que estreou já como a nova sensação da música brasileira e representou um respiro bom após o período de confinamento da pandemia, estava bem exigente consigo mesma neste novo trabalho. Tão criativa, precisou limar algumas coisas na edição final do disco.
“Tem músicas que amo que não entraram pois eu estava bem minuciosa a entender se cabia naquele contexto, assim como do barulho em cada música, tudo foi muito bem pensado. Eu queria passar essa sensação de colagem, de unir coisas bem diferentes, e trazer isso para a imagem do álbum. Você tá escutando funk, ai vem um bossa nova colada, varios sustos dentro o álbum”, define.
Participações internacionais
E os feats são “babadeiros”, nas palavras de Marina Sena: a ítalo-brasileira Gaia Gozzi e a rapper portuguesa Nenny em Tokitô e o trio com dois andaluzes e um colombovenezolano Çantamarta em Doçura. “Colaborei com artistas que gostaria de colaborar, que eu tinha vontade de fazer músicas com essas pessoas”, fala, sobre as escolhas.
Voz trabalhada
Aliás, Marina Sena gostou de explorar sua voz em Coisas Naturais: “Fiz nesse álbum um trabalho vocal que eu nunca tinha feito antes; […] Fiz um trabaho de produção vocal muito trabalhoso. Gravei uma música por dia, porque passava horas trabalhando uma única música. Antes eu cantava a música e deixava como ela ficasse. Nesse álbum não fiz isso, pois queria trabalhar cada detalhe de cada palavra, de cada som que saía da minha boca. Tinha música que gravava frase por frase”.
“Fiz um detalhamento de como minha voz tinha que funcionar em cada parte da música. Hoje eu canto todos eles muito melhor, pois me encontrei com cada faixa. […] Até minha doiderinha tem um jeito de acontecer. Eu estou em um processo da vida inteira de estar evoluindo a voz, pois não tem fim, e você pode ir sempre além. Sinto que estou começando a entender como colocar minha voz. […] Quero fazer todos os meus álbuns assim, sinto que estou a cada dia mais exigente”, avisa.
Inspirações
Marina Sena ressalta sua admiração por Gal Costa. A última gravação em estúdio da baiana, Para Lennon e McCartney, foi feita com Marina: “Eu só sabia falar de Gal Costa, era completamente obcecada. Então tudo que vi impregnou em mim. E agora, com essa técncia vocal que estou pesquisando, chego em lugares que me permite chegar em lugares que lembrem a voz dela. Meu sonho era que ela gravase uma música comigo”, conta, lembrando que conseguiu realizá-lo pouco antes da morte da grande artista, atualmente no remake de Vale Tudo na Globo, cantando Brasil, de Cazuza, George Israel e Nilo Romero, como em 1988.
Novo amor
Se em De Primeira a presença de Iuri Rio Branco, produtor e então amor de Marina, foi definitória. E em Vício Inerente o clima da ruptura também é perceptível no disco soturno, dessa vez a leveza do novo namorado, o dançarino e influencer Juliano Floss se faz presente em um tom mais solar. “Não compus algo para ele, mas para o que ele me faz sentir”, define Marina.
“Teve uma música que compus depois de me apaixonar por ele. Você se sente numa ilha estando no meio da cidade, um lugar que a paixão te leva. Não posso dizer que é para ele, mas o que ele me faz sentir, a sensação que ele me traz, está presente no álbum”, garante.
Hits pra cantar junto
Marina Sena quer o público cantando junto as novas faixas no show.
“Esse álbum tem muita música para o povo cantar. Parece que você ta cantando hino na Igreja, consigo fazer essas cisas na MPB que são altamente cantáveis, e nesse disco tem muitas”, observa.
“E tem vários picos de energia nesse álbum, bem dinâmico, o que é bom para show. Muitas músicas também sugiram de uma banda cantando, então elas nascem como um show acontecendo. É um álbum bem de show, grandes festivais, de fácil assimilação”, diz.
Tem até arrocha, aquela música típica de bar de beira de estrada: “Arrocha pasa muito por mim, pois quase toda música minha pode virar um piseiro. Eu sou do sertão de Minas, então, minhas referências são diferentes de quem nasce aqui em São Paulo, por exemplo. Essas músicas que tocam mais no interior estão no meu DNA, então fica muito fácil fazer um arrocha ou músicas que podem se tornar um”, afirma.
Essas raízes são essenciais para a carreira da artista. “Para criar melodia, não tem como falar que quer ser igual fulano, pois melodia está muito no inconscinete, que estão em você e nem sabe, que você assimilou a vida inteira. Eu tenho essa relação com vários ritmos, que moldaram minha persalidade, e naturalmente saem assim. Eu sinto também que quando você brinca com algum ritmo nordestino, falam que está usado, mas é comum a todos, normal, natural. Se você explora qualquer gênero, explorar piseiro é mais um tempero do molho brasileiro. O pop muda a cada reguião, e temos o pop brasileiro bem robusto e cheio de brasilidade. É muito natural fazer um arrocha, pois está em mim, não porque escolho fazer”, avisa.
Clipe e shows
“Tenho um single que sai junto com álbum: Ouro de Tolo vai ganhar clipe dois dias depois do álbum. Já fizemos ele junto com a capa e dentro da estética dela. Uma novidade na minha carreira, nunca fiz um clipe dentro do ambiente da capa, algo que me arrependi de não fazer em Vício Inerente”.
“Ouro de Tolo é muito impactante. Todo mundo que escuta ela se impressiona, e queria acabar o álbum com essa sensação, alguma coisa bem ousada. Queria brincar com as vias eletrônicas dentro da neobossanova. Representa muito o tanto que ousei dentro desse álbum e não lembra os anteriores. Mas aprendi a não me preocupar com o hit de single, mas sim focar na obra de arte e na forma que vou apresentá-la. Isso que está movendo minhas escolhas dentro desse álbum. E para finalizar era essa, não tinha outra. No meio do álbum a pessoa ia parar de escutar o disco, se sentir completo com ele”, opina.
Sobre os shows, ela adianta: “Já vai ter turnê, com um show de estreia em São Paulo, um mês depois do lançamento. Já tem muito show marcado em festivais e casas de shows, que soltarei em breve. Queremos fazer uma turnê bem robusta desse álbum”, promete
Já no fim do papo com o Blog do Arcanjo, a artista declara “Eu fiz esse álbum para meus fãs e eles vão amar. Fiz o que eles esperavam ouvir de mim. Espero ganhar o dinheiro que investi, que não foi pouco (risos). Mas foi um processo mais tranquilo de não ter tanta expectativas quanto já tive, não deixei elas tomarem conta do processo artístico. Claro que quero bombar muito, mas o que move o processo todo é a necessidade quase fisiológica de fazer uma obra que me represente. Espero que faça muito sucesso e eu faça muitos shows”, finaliza Marina Sena.

Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo desde 2012 e o Prêmio Arcanjo desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por TV Globo, Grupo Record, Grupo Folha, Editora Abril, Huffpost Brasil, Grupo Bandeirantes, TV Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Foi coordenador da SP Escola de Teatro. Integra o júri do Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de SP, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
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