★★★★ Crítica: Finlândia expõe falência da antiga fórmula do amor com brilho de Paula Cohen e Jiddu Pinheiro

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
★★★★
FINLÂNDIA
Avaliação: Muito Bom
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Quarta e quinta, 20h – Até 20/3/2025
Teatro Vivo São Paulo – Compre seu ingresso!
Em um frio quarto de hotel em Helsinque, um casal de artistas espanhóis vive sua pior crise. Em Finlândia, peça do francês Pascal Rambert em cartaz no Teatro Vivo, sob curadoria de André Acioli, dois corpos se confrontam constantemente a partir de um reencontro forçado, com os ótimos atores Paula Cohen e Jiddu Pinheiro sob direção de Pedro Granato. O drama intimista mostra um casal de classe média formado por uma atriz — mulher com os pés no chão e em momento bem sucedido da carreira no cinema — e um diretor teatral — mergulhado em velhos ideais e com a carreira estagnada e sem dinheiro no bolso. Ambos são pais de uma filha (interpretada por Turi) e observam seu casamento degringolar, afetado pelos momentos diferentes que vivem e também pelo entorno sociopolítico, com as discussões contemporâneas que dão poder à figura feminina e jogam o macho alfa para escanteio. Os novos papéis sociais para os gêneros, sobretudo os domésticos no mundo heteronormativo, tornaram-se indigestos, em certa medida, para ambos, por mais que o macho alfa eclipsado pareça ser o mais assustado. O grande mérito do verborrágico texto de Rambert é conseguir condensar a crise que muitos casais heterossexuais viveram e vivem nos últimos tempos, funcionando como um espelho social, característica histórica do drama. Desde sua estreia em Madri, em 2022, Finlândia já esteve com sucesso em países como França, Uruguai, México e República Dominicana. Afinal, a globalização e as redes tornam algumas alterações sociais instantâneas. Pedro Granato, ao lado de seu ótimo elenco, traduz com maestria a essência do texto de Rambert, tão íntimo e tão universal. O diretor coloca o público no lugar de voyer, uma testemunha daquela DR sem fim, tornando o quarto-cenário um ambiente claustrofóbico tal qual o relacionamento que este abriga. A carga emocional é palpável, e isso é fruto do ótimo desempenho dos artistas em cena. Também um casal na vida real, Paula Cohen e Jiddu Pinheiro demonstram ter a intimidade necessária para construir seus personagens com absoluta verossimilhança. Como é bom ver um bom e velho drama atuado com competência, coisa rara no pós-modernoso teatro brasileiro contemporâneo. Com a energia em riste, os dois atores fazem uma coreografia emocional e corpórea rica em nuances, por mais que uma leve edição na duração do espetáculo o tivesse deixado mais dinâmico e menos reiterativo, por mais que na vida real as discussões de casal sejam pesarosas. Também é preciso dizer que algumas soluções do dramaturgo, sobretudo em relação à mulher, pousam no fio da navalha do julgamento progressista contemporâneo. É necessário, ainda, ressaltar: uma das melhores atrizes de sua geração, Paula Cohen está absolutamente deslumbrante neste espetáculo. No time criativo enxuto e competente, a luz e cenografia de Marisa Bentivegna desenha sombras no gélido quarto, que acentuam as tensões do diálogo, enquanto que os figurinos da vida privada de Iara Wisnik reforçam a intimidade em excesso que parece ter defenestrado a admiração mútua daquele casal. A peça desestabiliza o público e o faz questionar o que realmente importa nesta vida e quais são os nossos discursos e sonhos reais. Afinal, após tanto investimento em uma vida a dois que teima em não dar certo, a porta de saída sempre está ali, pronta para ser aberta ou fechada. E essa decisão é, assustadoramente, intransferível. Finlândia é uma peça que ressoa nos lares contemporâneos, onde a antiga fórmula do amor já não funciona e é preciso reescrever, diariamente, as regras do jogo a dois, se é que isso ainda é possível.
★★★★
FINLÂNDIA
Avaliação: Muito Bom
Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Quarta e quinta, 20h – Até 20/3/2025
Teatro Vivo São Paulo – Compre seu ingresso!
Paula Cohen e Jiddu Pinheiro recebem Blog do Arcanjo no camarim de Finlândia no Teatro Vivo com exclusividade














Serviço
Finlândia, de Pascal Rambert
Temporada: 22 de janeiro a 20 de março de 2025
Às quartas e quintas-feiras, às 20h
Teatro Vivo – Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460 – Vila Cordeiro, São Paulo
Ingressos: R$80 (inteira) e R$40 (meia-entrada e preço popular)
Vendas online em https://bileto.sympla.com.br/event/100832/d/289381/s/1970880
Bilheteria: somente nos dias de atração, abre 2 horas antes de cada apresentação
Fone: (11) 3430-1524
Duração: 90 minutos
Classificação: 16 anos
Capacidade: 274 lugares
Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
Ficha Técnica
Texto: Pascal Rambert
Direção: Pedro Granato
Tradução e elenco: Paula Cohen e Jiddu Pinheiro
Luz e cenário: Marisa Bentivegna
Figurino: Iara Wisnik
Editado por Miguel Arcanjo Prado
Siga @miguel.arcanjo
Ouça Arcanjo Pod

Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo desde 2012 e o Prêmio Arcanjo desde 2019. É Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Eleito três vezes um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por TV Globo, Grupo Record, Grupo Folha, Editora Abril, Huffpost Brasil, Grupo Bandeirantes, TV Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Foi coordenador da SP Escola de Teatro. Integra o júri do Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio Governador do Estado de SP, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Destaque Imprensa Digital, Prêmio Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil. Vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade Prêmio Governador do Estado, maior honraria na área de Letras de São Paulo.
Foto: Edson Lopes Jr.
© Blog do Arcanjo – Cultura e Entretenimento por Miguel Arcanjo Prado | Todos os direitos reservados.