Crítica: Teias da corrupção são exibidas no palco do Teatro da Justiça do Rio em Um Inimigo do Povo

Peça Um Inimigo do Povo tem entrada gratuita até o fim do mês no Rio – Foto: Marcelo Carnaval

Por Átila Moreno, no Rio
Especial para o Atores & Bastidores*

Até que ponto a verdade de um homem entra em choque com a verdade da maioria? Até que ponto a maioria quer encarar de peito aberto a verdade? A voz do povo seria mesmo a voz de Deus?

Nelson Rodrigues já dizia que a unanimidade é burra. Se fosse vivo hoje, talvez, Henrik Ibsen (1828-1906) abraçaria o companheiro dramaturgo brasileiro, e teria a dimensão exata de Um Inimigo do Povo, sua obra sobre poder, corrupção e decadência dos valores humanos.

Quem adapta a história do escritor norueguês e ajuda a levar essas reflexões contemporâneas para os palcos é o projeto Teatro na Justiça, realizado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

Um Inimigo do Povo traz a simplicidade na narrativa ao contar o infortúnio vivido por um homem de bem, o médico Dr. Tomas Stockmann (Marcello Escorel numa delicada e fervorosa atuação).

Ele descobre que um balneário, principal atração turística da cidade, está poluído e oferece sérios riscos à população.  No entanto, Stockmann mal sabe que a cidade já estava lambuzada no chorume imoral.

O protagonista tem a difícil tarefa de convencer o irmão, prefeito da cidade, dos perigos de sustentar uma mentira em benefício do crescimento econômico. 
 

Espetáculo carioca discute a corrupção – Foto: Marcelo Carnaval

Se sentido acuado e traído, Peter Stockmann (vivido pelo convincente Alexandre Mofati) fará de tudo para sustentar seu legado e poder, inclusive incitar a população contra alguém que tem o seu mesmo laço de sangue. 

Num jogo de manipulação nefasto, o médico acaba sendo jogado contra o próprio povo (a história traz suaves referências ao marxismo, ao socialismo e até mesmo às passagens bíblicas, como a condenação de Jesus Cristo).

Por mais que séculos separem a história contada por Ibsen até os dias atuais, nota-se que o jogo pelo poder continua se encontrando na mesma esquina, ainda mais quando ele se prostitui com os veículos de comunicação e a opinião pública.

Sobram críticas à postura da imprensa, sintetizada na figura do editor do jornal A Voz o Povo.  Eduardo Rieche vive o jornalista Hovstad, que vende a alma ao diabo ou para quem o trouxer qualquer tipo de benefício. Ibsen também destila veneno à inércia de uma classe média, que insiste em ficar sempre em cima do muro, acometida pela síndrome de Pôncio Pilatos, personagem bíblico.

Característica com grande destaque na figura do Sr. Aslaksen, impressor do jornal e presidente da associação dos donos de imóveis, interpretado pelo ótimo Paulo Japyassu, que dosa muito bem elementos cômicos num tema tão denso. 

É interessante notar o trabalho cuidadoso da dramaticidade comandado pela diretora Silvia Monte. Além do mais, cenários, figurinos, maquiagem e iluminação são, impecavelmente, reconstruídos para dar o clima do século 19.
 
O texto mais ágil e dinâmico faz com que as duas horas de espetáculo não fique tediosa, mesmo com um tema reflexivo, que leva a indigestos choques de realidade. Torna-se necessário trazer Inimigo do Povo para o século 21, principalmente, inseri-lo na série de escândalos políticos que vem ocorrendo no Brasil.

Na história de Ibsen, há uma rede de esgoto comprometida pela poluição do balneário. Circunstância que cabe como uma luva no esquema de corrupção executado por meio do valerioduto ou mensalão, e outras denúncias que vêm ocorrendo no País.
 
Infelizmente, usar tal luva não ajuda a limpar muita coisa. Mas, pelo menos, Um Inimigo do Povo sacode a roupagem política enrolada na farsa.  Aquela roupagem usada muitas vezes para um mergulho sem volta e  infectada pelo individualismo.

*Átila Moreno é jornalista e escreveu esta crítica a convite do blog.

Um Inimigo do Povo
Avaliação: Bom
Quando: Terça, quarta e quinta, às 19h. 120 min. (com intervalo de 10 min.). Até 27/3/2013.
Onde: Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro – Antigo Palácio da Justiça – Sala Multiuso (r. Dom Manuel, 29, Centro, Rio)
Quanto: Grátis
Classificação etária: 10 anos

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